quarta-feira, 23 de novembro de 2016

MARCELO ALVES


   
Marcelo Alves

Sobre “O vento será a tua herança” (II)

Como prometido na semana passada, hoje conversaremos mais detidamente sobre o filme “O vento será a tua herança” (“Inherit the Wind”), de 1960, dirigido por Stanley Kramer (1913-2001), cineasta que, registre-se, também dirigiu o outro grande “filme de tribunal”, “O Julgamento de Nuremberg” (“Judgment at Nuremberg”), de 1961, sobre o qual, um dia, aqui também falaremos. 

“O vento será a tua herança” (“Inherit the Wind”) nos apresenta o célebre “Julgamento do Macaco”, acontecido em 1925, na pequena cidade de Dayton, no estado norte-americano do Tennessee (no coração do chamado “Bible Belt” estadunidense, onde o pensamento religioso é dominado por uma interpretação estritamente literal da Bíblia), no qual o professor local John Thomas Scope (1900-1970) foi criminalmente processado por haver infringido uma lei estadual que proibia o ensinamento da teoria da evolução da Charles Darwin (1809-1882) nas escolas. No julgamento de 1925, como a história registra, o político populista e fundamentalista William Jennings Bryan (1860-1925), na acusação, buscou a assegurar que as crenças religiosas ditassem o ensino da ciência nas escolas americanas, enfrentando o célebre advogado liberal Clarence Darrow (1857-1938), que, “pro bono”, faz defesa do acusado professor. 

Entretanto, embora “O vento será a tua herança” (“Inherit the Wind”) seja um dos mais antigos exemplos de filmes de tribunal inspirado em fatos reais, em sendo ficção, boa parte do que ele apresenta não corresponde ao que realmente se passou no “Julgamento do Macaco” de 1925. Como informam Steve Greenfield, Guy Osborn e Peter Robson (em “Film and the Law: the Cinema of Justice”, Hart Publishing, 2010), lendo os registros e as transcrições do caso de 1925, vê-se claramente que “muitas liberdades foram tomadas em relação aos eventos acontecidos”. 

No filme de 1960, o julgamento se dá em Hillsboro, a “fivela do cinturão bíblico” dos Estados Unidos da América, cidadezinha fictícia supostamente localizada entre os estados do Tennessee e do Kentucky. Spencer Tracy (1900-1967) faz o papel de Henry Drummond (personagem baseado em Darrow), o advogado da grande cidade (de Chicago, mais precisamente), que defende um professor local, o jovem Bertram T. Cates (na vida real, o réu chamava-se John Scopes), papel de Dick York (1928-1992), criminalmente acusado por haver discutido a teoria da evolução em sala de aula. Fredric March (1897-1975) faz o papel do promotor especial para o caso, Matthew Harrison Brady (personagem baseado em William Jennings Bryan), que é um célebre político populista e religiosamente ultraconservador. Também muito importante na trama é o papel Gene Kelly (1912-1966), que interpreta o jornalista do Baltimore Herald E. K. Hornbeck, personagem que, por sua vez, é inspirado no grande jornalista e iconoclasta americano (de Baltimore) H. L. Mencken (1880-1956), o criador da antes referida expressão “Bible Belt”. O elenco ainda conta outros nomes conhecidos do cinema e da televisão, tais como Donna Anderson (1939-, no papel de Rachel Brown), Florence Eldridge (1901-1988, como Sara Brady), Harry Morgan (1915-2011, como o juiz Mel Coffey), Elliott Reid (1920-2013, como o promotor Tom Davenport) e Claude Akins (1926-1994, como o reverendo Jeremiah Brown). 

Cinematograficamente falando, a grande performance de Spencer Tracy no papel de Henry Drummond (muito embora eu ache que uma maior teatralidade cairia bem nesse causídico), ao lado da fantástica interpretação de Fredric March, como o acusador Matthew Harrison Brady, o dragão do literalismo bíblico que no julgamento é completamente desacreditado, são pontos altos da sétima arte. No mais, como lembram Steve Greenfield, Guy Osborn e Peter Robson (em “Film and the Law: the Cinema of Justice”, Hart Publishing, 2010), o filme é memorável pelas várias cenas de tribunal, em particular a inquirição (em “cross-examination”) do próprio promotor Matthew Brady, “que é chamado como testemunha, para explicar o significado da Bíblia”. De minha parte, também achei especialmente tocante a cena, no final do julgamento, em que o advogado/promotor Matthew Harrison Brady faz uma peroração final (leia-se um sermão) delirante, ao fim da qual, encolerizado, ele morre. Cenas como essa, em que a ficção se aparta da realidade (pois, como sabemos, William Jennings Bryan faleceu cinco dias após o “Julgamento do Macaco”, do que à época foi chamado de um “ataque de apoplexia”), fazem de “O vento será a tua herança” (“Inherit the Wind”) um dos melhores filmes de tribunal de todos os tempos. 

Juridicamente falando, a coisa toda, desde o início do filme, é marcada pelo preconceito e pela parcialidade. O acusador Matthew Harrison Brady – tido, como lembra Christian Guéry (em “Les avocats au cinéma”, Presses Universitarie de France/PUF, 2011), como a “mão direita do Senhor” –, no comecinho da trama, já chega à pequena cidade interiorana de Hillsboro literalmente nos “braços do povo”, que, em sua grande maioria (salvo alguns jovens estudantes da cidade, o filme dá a entender), apoia as teorias criacionistas da Bíblia em oposição às teses darwinianas sobre a origem dos homens. “Aquele que acredita descender de macacos acaba virando um macaco”, é o que mais ou menos afirma o herói dos criacionistas. No julgamento propriamente dito, a defesa é proibida de trazer ao júri o depoimento de cientistas e estudiosos dos mais variados ramos do conhecimento, todos de reconhecida reputação, enquanto que à acusação, personificada na figura de Matthew Harrison Brady/William Jennings Bryan, é permitido apresentar e desenvolver os mais variados e fundamentalistas argumentos teológicos. 

Como anota Nicole Rafter em artigo constante do livro “Law and Film” (Blackwell Publishers, 2001), “com o radicalismo religioso e moralismo permeando a sala de julgamento, potencializados pelo calor angustiante do sul dos EUA, as chances do professor de ter um julgamento justo parecem desde logo nulas”. A argumentação de Henry Drummond em prol da liberdade de pensamento de nada vale contra os preconceitos arraigados na pequena Hillsboro. E o professor/réu é condenado, embora apenas a uma pena simbólica de multa. 

Bom, mas esses e outros aspectos jurídicos do filme eu pretendo abordar no nosso papo da semana que vem. 
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Mestre em Direito pela PUC/SP

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