domingo, 27 de novembro de 2016

CANTILENA DO BECO DA QUARENTENA - GUMERCINDO SARIVA


A célebre rua estreita e curta, na sua longa existência tem aparecido através de música, teatro, prosa, quadra epoemas modernos, mas, nunca em versaria completa, historiando a sua vida passional, como agora o fazemos, dando-lhe o título de CANTILENA DO BECO DA QUARENTENA, O mestre Castilho, em sua época, condenou as Sextilhas, mas os cantadores de vida, principalmente Nordestinos, escreveram seus poemas no estilo tradicional, também conhecidos por versos-de-seis pés.

A Sextilha-setissílaba tem várias formas de rimas, mas adotamos, como a maioria dos cantores-matutos, na fórmula mais popularizada – ABCBDB, - muito usada a começar do Século XVI. Mesmo os poemas eruditos, versejaram neste estilo e eram aplaudidos porque o canto logo cedo seria decorado pelo emparelhamento das rimas visivelmente aparecendo quase juntas.

Sobre o termo CANTILENA, que tanto pode ser uma cantiga suave, como também uma narração fastidiosa, impertinente e enfadonha, resolvemos situá-la fora da canção que, na musicologia - aparece i

Há muitos anos vimos realizando uma pesquisa em torno de logradouros natalenses, insignificante, inexpressiva, atoa, e J. J.,Rousseau chegou a dizer que não era aconselhável seu nome aparecer nos dicionários musicais, contudo, o dicionarista português Ernesto Vieira afirmou - "Hoje emprega-se o termo num sentido desprezível para
designar uma melodia trivial e monótona". E num dos versos de Camões
- OS LUSÍADAS - encontramos: - “As doces Cantilenas que cantavam os emicapros deuses”,

No nosso livro ADAQIÁRIO MUSICAL BRASILEIRO, editado por Saraiva S/A, S. Paulo, pg. 41, sobre o termo, escrevemos: - “Acaba com essa cantilena - que é uma canção suave, cantiga simples. No sentido em que se emprega o adágio, quer dizer' entretanto, que se deve acabar com a maneira usada para iludir, com a astúcia, Acabe com cantilena - isto é, deixe de querer tapear, iludir, enganar”.

Estando, portanto, Cantilena em vários dicionários de música, chegamos à conclusão que o vocábulo de tão simples formação, representa um insignificado aspecto na fonologia de um povo. E, de sua inexpressividade, apelidamos a versaria comida neste trabalho.

-oOo-

A promiscuidade dos sexos, o oficialismo da prostituição adesmoralização da sociedade com seus costumes educativos a perversão desenfreada, edificam-se em Natal no início do Século XVII e talvez atravesse outros tempos que vierem pela frente, porque continua cada vez mais alargado o caminho espaçoso, tenso e amplo da miséria humana, vivida no centenário “Beco da Quarentena”.
mas, o "Beco da Quarentena" foi o que mais impressionou ao estudioso dos costumese tradições norte-rio-grandenses, porque em nossa meninice fomos assíduos frequentadores daquele antro de vícios, juntamente com outros colegas que já se foram do nosso convívio. Consequentemente, jamais no bairro da Ribeira uma rua ilustrou tanto as páginas de jornais, com assiduidade e constância, a boemia, a vagabundagem, a imoralidade e a falta de decoro na ociosidade daquele ambiente de degenerescência moral.

Anos passados, numa das aulas que demos 'no "Curso João Caetano", promoção do "Teatro de Amadores de Natal", a convite do teatrólogo Sandoval Wanderley, no prédio do "Instituto Histórico e Geográfico do Rio G. do Norte, abordamos o tema da poesia popular, ocasião em que lemos o trabalho agora transformado numa plaquete, a nosso ver, sem nenhum fator literário. Oferecendo em seguida a versaria, eis que Sandoval Wanderley transformou o assunto numa peçade sua autoria.

No decorrer do tempo, outros poetas e escritores escreveram trabalhos literários enriquecendo a cultura norte-rio-grandense, envolvendo fatos existidos no famigerado logradouro que ainda hoje vive seus dias amargurados porque ainda é notória e até de “utilidade pública” sua vivencia repleta de mulheres “perdidas”, alcoólatras inveterados e toxicômanos encontrando nos entorpecentes as sensações anômalas de uma geração cheia de complexos sociais. 

A história contada pelo amigo que pediu segredo é verdadeira. Ouvimo-la e a levamos para a versaria já conhecida por alguns intelectuais de nossa terra, pois há precisamente cinco anos fizemos publicação na Tribuna do Norte – 22-7-73 de uma parte da narração e, em seguida, um grupo de oficiais da Policia Militar do Estado tirou vários exemplares em xerox.


G. S.
Natal, março de 1979





Vou narrar a triste história
Que um amigo montou
Pedindo ocultar seu nome
Que o poeta concordou.
Entre soluços e prantos
Ele, assim, desabafou:

- “A criança é tal como ave”
Que voando na amplidão.
Não conhece o bom caminho
Segue em qualquer direção
Por isso, as vezes baqueia.
Recebendo após, perdão.

Atira pedra, faz arte
e também não obedece
Os conselhos de seus pais
Sempre, sempre ela padece
Porque o mundo
é quem ensina
E quando adulto, agradece.

Meu velho avô me dizia
Que este mundo era uma escola:
Aprendia quem apanhava.
Cem pancadas na cachoIa
Vivi rolando na infância
Como se fosse uma bola ...

Nascendo na Verde-Baixa
Vim pra Natal logo cedo,
A criança destemida
Enfrenta a vida sem medo
Mas precisou muitos anos
Pra contar este segredo.

De fato, de minha terra
Saí feliz, satisfeito
Encontrando esta Natal
Sem maldade e sem defeito
Pois ela tinha o sabor
De alfenim, raiva e confeito.


Que as crianças saboreiam
Como faz o beija-flor
Sugando todo o aroma
No complexo do amor
Não é que os pássaros beijam
As flores com muito ardor?

Em natal fui avisado
Pra não fazer tal asneira:
- Cuidado com o certo Beco
Encravado na Ribeira
Onde vive a perdição
Em forma de escarredeira...

Mas não tomei os conselhos
Que me davam todo o dia
Até que desnorteado
Naquele Beco caía
E agora conto pra todos
Fruto de uma rebeldia:

No “Beco da Quarentena”
Conheci a perdição
No meu tempo de criança
Sem ter da vida a noção
Convivendo com a mulher
Que enlutou meu coração.

De lá saí arruinado
Me lembrando da besteira
- O amor era ali feito
Em cima de uma esteira
sob a, luz da lamparina
que era acesa a noite inteira.

Minha amante a mais nova
Inquilina da Pensão
Chegada ainda menina
Vinha do alto sertão
Trazendo um velho vestido
Uma calça e um sutiã.


Sua cor de Tez morena
Com cabelo cacheado
O corpo era um violão
Como sendo torneado
Tinha o rosto de criança
Parecia um mimo achado.

Sem nenhuma experiência
Embrenhou-se na desgraça
Juntamente com as colegas
Que eram moças de outra praça
Tomando a sua maconha
Com tangerina e cachaça

Às vezes, elaia no banho
La no Rio Potengi
Em noites de lua clara
Muitas horas eu assisti
Seu corpo banhado n’água
Como se fosse a Jaci.

Ainda nas calças curtas
Residindo na Ribeira
As mulheres “davam sopa”
Vivendo na bebedeira
Minha vida tinha inicio
No antro da “buraqueira”.

Naquele Becoda lama
Constantemente vivia
Entrando de porta adentro
E a pobre da inquilina
Desamparada morria.

Sem ter pra quem apelar
A miséria ali reinava
Jamais a “Saúde Pública”
Naquele Beco passava
Poe isso é que uma criança
Perdida no mundo estava.



Muitas “doenças do mundo”
Empestavam a mocidade
E essa chaga malditosa
Contaminava a cidade
Pois conheci muita, gente
Morrendo na flor da idade

A Polícia era constante
Dava ronda a noite
inteira
Mas nunca evitou as brigas
Vivendo de tal maneira
Que muitas mortes ali houve
Por-causa da bebedeira.

No outro dia, os Jornais
Lamentavam, tinham pena
Dando notas alarmantes
A coluna era pequena
Pra contar as suas brigas
No “Beco da Quarentena”.

Ocrime mais hediondo
De que tive conhecimento
Foi feito por um tarado
Por nome de Nascimento
Matou a Maria Rosa
ex-esposade um detento.

Nascimento era “embarcado”
Do navio “D. Vital”
E passando o ano inteiro
Afastado de Natal
Por isso matou a Rosa,
Através do seu punhal.

Naquele Beco infeliz.
Conheceu a tal mulata
Conquistando o seu amor
Dando-lhe joias de prata
Assim, a Maria Rosa
Das mulheres, era a “nata” ...
Também conheci a Rosa
E com ela tive amor...
Era mulher carinhosa
Com seu corpo de esplendor
Seu riso, seu olhar triste
Tinha a ternura da flor.

Cantava samba e modinha
Ao som do meu violão
Recitava alguns poemas
Coma maior exaltação
Parecia a voz dos pássaros
Nas manhãs do meu sertão

Praieira dos meus amores
Rosa cantava sorrindo
Ninguém melhor do que ela
Interpretava sentindo
O que Otoniel contou
Naquele poema tão lindo.

Outras modas potiguares
Rosinha cantarolava
“Abre a janela ...” do Ivo
Feita a mulher que ele amava
E Olímpio Batista Filho
Horas depois, musicava.

As mulheres mais formosas
Daquele Beco infernal
Tinham os nomes mais lindos
Que conheci em Natal;
Rosa, Judith, Jurema.
Jaqueline e Marial,

Iracema eJacira
Julimar, Inês, Bonina
Iraci, Branca e Maria
Isabel, Mara e Alvina
Inês, Pureza, Cecí
Alice, Marta, Venina.


Foram “mulheres da vida”
eu de todas tinha pena
Pela fome que passavam
Corno um bando de falena
Vivendo desabrigadas
No “Beco da Quarentena”.

Infeliz de uma mulher
Que morar naquela rua
Nunca mais terá sossego
Com a vida que ali flutua
Pois pra ganhar o seu pão
Tem que ficar toda nua.


Vendendo por mixaria
O que lhe deu o Criador
Beijos, abraços, afetos
Felicidade e pudor
E seu formoso corpinho
O coração, e o amor.

Quarentena! És um inferno
Que os bichos-homens criaram
No reinado da miséria
Suas vidas estragaram
Infelizes dos mortais
Que naquele Beco andaram.

Quantas vidas preciosas
No Beco da perdição
Tiveram sua má sorte
Pois não indo pra Prisão
Findavam no Cemitério
Sem ter uma "Extrema-Unção".

Faca, peixeira, quicé
Canivete e até porrête
Eram armas que se usavam
Quando havia “tirinête”
E a soldada fugia
Pra se livrar do cacete.

Meu amigo Zé Vicente
Que morava em Caicó
Foi um menino educado
Pela sua bisavó
Logo cedo foi ao Beco
Saindo de lá, cotó.

Numa briga de malandros
Defendendo o Pedro Tasso
Duma bruta covardia
Levou um forte balaço
Indo ficar no "Hospital"
Perdendo afinal um braço

Pederastas, cafetinos
Maconheiros, afamados
Frequentavam o tal Beco
Sendo bastante estimados
Avistando com seus homens
Com os quais eram amigados.

................................................

Hoje sou velho e doente
Residindo no Alecrim.
Viajei todo o Brasil
Conheci o "bom e o ruim"
Mas igual aquele Beco
Só praga de mucuim.

E salvei-me porque Deus
O senhor da humanidade
Atendeu as minhas preces.
Teve de mim, piedade
Dando luz e suas
bênçãos
Ainda na flor da idade.

             -oOo-

Me despeço dos amigos
Motivado de emoções
No "Beco da Quarentena"
Tem mulheres e violões
Muita cachaça e maconha
Pederastas e ladrões!

 ______________________
colaboração de ODÚLIO BOTELHO






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