domingo, 21 de maio de 2017


UM ESCLARECIMENTO
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes, do IHGR

Em sua coluna Roda Viva, edição de hoje, o ilustre jornalista Cassiano Arruda reclama do esquecimento do nosso maior herói, o Padre Miguelinho (Miguel Joaquim de Almeida e Castro), figura emblemática na Revolução Pernambucana de 1817, onde foi o Secretário de Interior, mercê da sua grande capacidade de redigir documentos, coragem, poder de oratória, atributos consolidados com o seu trabalho de Professor de Teologia.
Miguelinho pertenceu à Ordem Carmelita da Reforma, onde tomou o nome de Frei Miguel de São Bonifácio. Contudo, pela diversidade de seus trabalhos, conseguiu do Papa Pio VII a secularização e ficou conhecido como Padre Miguelinho, haja vista ser um homem de pequena estatura física em contraste com o seu gigantismo de patriota.
O Padre Miguelinho foi condenado e executado na Bahia em 12 de junho daquele ano, sepultado no Cemitério do Campo da Pólvora.
Em verdade, ele não foi esquecido, pois o nosso Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte lhe vem prestando homenagens desde o dia 29 de março, com a entronização no recinto da sua estola, por ocasião das comemorações da passagem dos 115 anos, conduzida por dois religiosos. Na mesma ocasião foi lançada uma edição histórica da Revista do Instituto, a qual traz inúmeras referências e discursos sobre o nosso mártir.
Por último, já está preparada outra solenidade sobre o pranteado Miguelinho para o dia 12 de junto vindouro.
Este articulista preparou um trabalho para publicação na próxima revista da ANRL com o título de MÁRTIRES POTIGUARES NA REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA DE 1817.
Está justificado o equívoco.


sexta-feira, 19 de maio de 2017



 CENTENÁRIO DE SEU POTI

Valério Mesquita
mesquita.valerio@gmail.com

Nascido no dia 11 de maio de 1917, no povoado de Rego Moleiro, na antiga Vila de São Gonçalo do Amarante/RN, Francisco Potiguar Cavalcanti, mais conhecido com Poti Cavalcanti, era filho de Alexandre Carlos Cavalcanti e de Maria Isabel Rodrigues Cavalcanti. Viveu a infância e a adolescência com seus pais e irmãos, tendo estudado no G. E. Otaviano, no colégio Marista e no Atheneu Norte-riograndense, tendo contraído núpcias com Iolanda Lins d’Albuquerque, em 18 de setembro de 1943.
Nessa época, já estava em curso o movimento político para extinção do município de São Gonçalo e a consequente criação de São Paulo do Potengi, ocorrida em dezembro de 1943. Transferida a sede do extinto município para São Paulo do Potengi, Poti e Iolanda mudaram-se para aquela cidade. Dessa união nasceram seis filhos: Paulo Tarcísio, Ana Maria, Maria das Graças, Alexandre Cavalcanti, Marta Maria e João Maria falecido aos seis meses de idade. Em janeiro de 1954, dona Iolanda faleceu na Casa de Saúde São Lucas.
Após rápida passagem no Departamento de Imigração em Natal, Poti retornou às lides da sua terra natal, à época, distrito de Felipe Camarão, município de Macaíba. Decretada a emancipação política de São Gonçalo do Amarante em dezembro de 1958, o patriarca Manoel Soares da Câmara foi nomeado prefeito e governou de 1959 a 1960. Devido a experiência no serviço público, Poti foi nomeado secretário municipal. Nas eleições realizadas em outubro de 1959, Poti foi eleito vice-prefeito, na chapa encabeçada por Leonel Mesquita, tomando posse no dia 19 de janeiro de 1960. Durante o referido mandato, exerceu comulativamente o cargo de presidente da Câmara Municipal, tendo sido, portanto o primeiro presidente. A legislatura inicial da Municipal era assim composta: Francisco Potiguar Cavalcanti – vice-prefeito e os seguintes vereadores: Deomedes Barbosa do Nascimento, Geraldo Correia de Lima, José Moacir de Oliveira, José Horácio de Góis, José Protásio de Lima, José Mendes Emerenciano, Lourival Florêncio de Morais, Maurício Fernandes de Oliveira, Severino Rodrigues da Silva e Sílvio de Pontes Bezerra.
Em 1965, tomou posse no cargo de prefeito ao lado do vice, Lauro Pinheiro da Costa (Capito). Dentre as principais realizações administrativas, destacam-se a integração do município a rede de cidades beneficiadas pela energia de Paulo Afonso, contemplando à sede e o distrito de Santo Antonio do Potengi, a melhoria do sistema educacional, a ampliação e conservação das estradas vicinais, a desapropriação de terrenos na área urbana para doação a famílias carentes, fazendo surgir diversas ruas, como a 31 de Março, rua da Floresta, Poti Cavalcanti, entre outras, inclusive no povoado de Jacaré-Mirim.
Em 16 de janeiro de 1960, casou-se com Iracy Alcoforado, de tradicional família de São Paulo do Potengi. Professora, diretora do G. E. Maurício Freire, Iracy Guedes teve destacada atuação na sua cidade natal. Dessa união nasceram: Poti Junior (hoje Conselheiro do TCE/RN) e Suely. Em 1961, Poti assumiu o cargo de tabelião oficial do registro civil, do 2º cartório judiciário da comarca, no qual permaneceu em exercício até dezembro de 1983, quando se aposentou. Aos 70 anos, em 18 de maio de 1986, ele faleceu na Casa de Saúde São Lucas e foi sepultado no cemitério da Saudade, em São Gonçalo do Amarante.
Agradeço ao Instituto de Arte e Cultura e Educação Popular Maurício Fernandes de São Gonçalo, na pessoa de Teófilo Justino de Oliveira Neto, pelo fornecimento dos dados biográficos aqui registrados. Dia 11 passado, seu centenário foi lembrado por todos que admiram a sua conduta, honestidade e liderança política, entre os quais me incluo.

(*) Escritor

quarta-feira, 17 de maio de 2017


 

 
   
Marcelo Alves

 

Fundamentação x argumentação 

Sobre a fundamentação das decisões judiciais, a nossa Constituição Federal, no seu art. 93, inciso IX, expressamente dispõe que “todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade (...)”. E o nosso novo Código de Processo Civil, como não poderia deixar de ser, no seu art. 11, caput, repetindo a redação da CF, seguiu a mesma trilha. 

Na verdade, o NCPC foi até mais longe, pois, especialmente no seu art. 489, § 1º, prevê hipóteses em que a exigência constitucional e legal da fundamentação das decisões restará desatendida: “§ 1º Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: I - se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação com a causa ou a questão decidida; II - empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo concreto de sua incidência no caso; III - invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão; IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador; V - se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos; VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento”. 

E se todas as decisões judiciais devem ser fundamentadas ou motivadas, assim o é primeiramente como elemento essencial do processo, mas também como condição de legitimidade da decisão propriamente dita e da atividade jurisdicional como um todo. Diante de uma decisão motivada e transparente, qualquer jurisdicionado e a sociedade como um todo – além das partes, dos seus advogados e dos demais atores envolvidos na lide específica – têm condições mínimas de aferir a imparcialidade do Poder Judiciário e se as decisões deste são pautadas pelo direito ou se são resultados de arbítrio dos julgadores. 

Isso porque – pelo menos era para ser assim –, o juiz fundamenta sua decisão sem interesse algum na causa, apenas imparcialmente elencando, nas palavras de Víctor Gabriel Rodríguez (em “Argumentação jurídica: técnicas de persuasão e lógica informal”, editora Martins Fontes, 2005), “elementos que devem convencer as partes de que seu raciocínio é o mais correto, é o decorrente da lei, e de que seu livre convencimento não provém da arbitrariedade, mas sim de uma boa avaliação de todas as provas e de todo o ordenamento legal”. 

E é aqui que devemos distinguir fundamentação propriamente dita de argumentação. 

Aquele que argumenta – como é sobretudo o caso do advogado, mas também às vezes do Ministério Público quando parte no processo – tem um lado e defende um ponto vista, que muitas vezes não é o correto ou o melhor segundo o direito, buscando acima de tudo obter a adesão de outrem, em regra um juiz ou tribunal, a esse ponto de vista. O argumentante frequentemente se afasta do melhor direito para obter a adesão do ouvinte ou leitor. O argumentante às vezes até se afasta do seu próprio convencimento para obter a adesão que deseja, pois esse é, essencialmente, o seu objetivo. Argumentar implica técnicas de retórica e persuasão. Argumentar, às vezes, implica paixão. Mas isso não é fundamentação em sentido estrito; com certeza não é essa a fundamentação exigida, dos juízes e tribunais em todas as suas decisões, pela Constituição Federal e pelas normas de processo e procedimento do nosso país. 

Na verdade, como explica o já citado Víctor Gabriel Rodríguez, “argumentar, em sentido estrito, é algo mais que a construção do bom raciocínio jurídico, para aqueles que operam o Direito. Argumentar significa partir do bom raciocínio jurídico e preocupar-se [muito mais] com o conteúdo linguístico necessário para que o leitor o aceite como verdadeiro (ou, ao menos, o aceite como o melhor dos raciocínios apresentados, no caso da dialética processual)”. 

Para o advogado, argumentar, muitas vezes com paixão, é essencial, não obstante o discurso excessivamente argumentativo acabe perdendo o seu valor, porquanto quem argumenta demais frequentemente não possui o direito. Assim, mesmo para o advogado, o ideal é dar ao discurso, sutilmente, uma roupagem de fundamentação, mais neutra, mesmo que, no fundo, aquilo seja mesmo uma argumentação. 

De toda sorte, (re)afirmo: argumentar, definitivamente, não é o papel de um juiz. O juiz não deve ter paixões. 

Marcelo Alves Dias de Souza 
Procurador Regional da República 
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL 
Mestre em Direito pela PUC/SP

Jornalistas escritores do RN: Entrevistas

16/05/2017



(foto por Cícero Oliveira)

GUSTAVO SOBRAL, O desbravador da regionalidade[1]
Fascinado pela literatura potiguar, ele fala sobre sua trajetória, revive memórias e destaca a importância do jornalismo em sua obra

Andréa Tavares / Beatriz Vital / Cícero Oliveira / Jefferson Gomes

Ainda na infância, Gustavo Sobral encontrou na literatura uma fonte inesgotável de materiais que respondiam às suas indagações, ao mesmo tempo em que geravam mais curiosidade. Foi na biblioteca dos avós, herdada na vida adulta, que ele teve grandes encontros com Machado de Assis, Rubem Braga, Carlos Drummond e tantos outros nomes da literatura brasileira. Conhecer o mundo, visto apenas nas páginas dos romances, passou a ser o seu objetivo, e a carreira diplomática era o caminho mais desafiador.

Gustavo formou-se em Direito em 2006, profissão que parecia a mais adequada para um diplomata. Logo depois, fez em São Paulo um curso preparatório para ingressar no Instituto Rio Branco. Sem sucesso, partiu para a faculdade de Jornalismo, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em 2008.

Quem ouve sua história, não consegue imaginar que o garoto natalense que pretendia conhecer o mundo, hoje é quem faz o mundo conhecer um pouco mais de Natal. Sobral usa seu faro jornalístico para remexer cartas, postais, rascunhos de textos, anotações em livros, manuscritos, papéis e mais papéis em busca de informações novas sobre importantes escritores e intelectuais potiguares. Não importa onde esses documentos estejam: ele corre atrás, com determinação e curiosidade. Uma curiosidade que se retroalimenta, que o leva de uma missão para outra, e faz o artista se confundir com sua arte.

A partir de que momento os livros começaram a se tornar indispensáveis em sua vida?
Gustavo Sobral: Meus avós tinham uma grande biblioteca, porque meu avô comprava muitos livros. Sempre que eu ia lá, trazia um livro, fosse o que fosse: biografia, livro de história do Brasil, um romance brasileiro ou estrangeiro. Eu tinha uns 12 anos. Toda semana, eu lia e devolvia um livro. Então, ia passeando pelos títulos, descobrindo aquilo que me interessava no momento. Sempre que ia às casas dos amigos, me enfurnava onde havia livros. Eu estudava no Complexo Educacional Henrique Castriciano.
Lá também tinha uma biblioteca enorme, sobretudo de autores do Rio Grande do Norte. Eu tinha bastante curiosidade pela literatura e pela história do RN, então comecei a ler os autores daqui - Henrique Castriciano, que foi um grande poeta, Câmara Cascudo. Havia uma pequena academia de letras, para os alunos, e fui incentivado a participar, tanto que cheguei a ser presidente de brincadeira. Fiquei na primeira cadeira. Aquele era um espaço para trocas intelectuais. Fazíamos leituras e tinha uma pequena revista, na qual publiquei alguns textos.

Nessa época você já pensava em ser escritor?
GS: Não. Eu fazia um curso de português com o professor Bartolomeu Fagundes. Ele nos incentivava a ler jornal e a escrever um comentário sobre alguma matéria. As aulas de literatura dele eram as que me fascinavam. Aqueles livros que todo mundo acha chatos, de vestibular, Graciliano Ramos etc., passaram a ter um sentido maior para mim, porque Bartolomeu apresentava a obra e o autor de forma crítica. Eu ficava esperando aquela aula. Era magnífico. Daí, cultivei o hábito de também ler jornais, e não só os daqui. Para mim, o jornalismo é uma grande ponte e fonte de conhecimento. No jornal, eu lia sobre livros, exposições, filmes, críticas literárias, resenhas. Comecei a colecionar jornal.

E o que você costumava ler?
GS: Eu lia as coisas mais improváveis. Havia uma coleção chamada Civilização Brasileira, publicada pela editora José Olympio, que meu avô tinha quase completa. Era linda, porque o símbolo era a palmeira imperial. Nela, tinha um livro do Barão de Rio Branco que explicava a questão do Acre. Até sobre isso eu li. Daí é que surgiu meu interesse pela diplomacia.

O que interessava a você, na diplomacia?
GS: O diplomata é aquele que precisa conhecer a história do seu país para mostrá-lo ao mundo, onde quer que esteja. Ao mesmo tempo, tem oportunidade de conviver com outras culturas e, assim, crescer. Então, como eu pensava em ser diplomata, sabia que deveria ter cultura e conhecimento. Eu precisava ler, mas ler coisas boas e, nesse aspecto, a biblioteca me ajudou bastante.

Mas você pensava em ser jornalista nessa época?
GS: Sim e não, porque minha meta era o Instituto Rio Branco, era a carreira diplomática. Para ser diplomata, você pode ser qualquer coisa, então fui fazer direito, que se aproximava mais daquilo que eu queria. Mas a diplomacia também tem uma relação muito forte com a cultura. Vinícius de Moraes, por exemplo, foi poeta e diplomata.

E como você se preparou para ser diplomata?
GS: Eu comecei a comprar meus próprios livros e a construir minha biblioteca. Daí minha avó faleceu, e herdei a biblioteca dela. Li quase tudo que tem lá. Até latim comecei a estudar, porque se você quer ser autor, precisa conhecer a língua com a qual trabalha. Fiz um curso preparatório para o Instituto Rio Branco. A prova para ingressar no instituto é um terror.
Você tem de ter conhecimentos de geografia, de línguas, de política internacional, direito internacional, conhecimento de mundo. E também uma preparação humanística muito forte. No curso tive professores surpreendentes e me interessei por ciência política. Li Hannah Arendt, Aristóteles.

Você considera que teve uma infância privilegiada?
GS: Sim, porque sempre tive liberdade para exercer minha vocação. Ninguém me incentivou, nem me privou. Vim de uma casa de grandes leitores. Lia-se muita literatura brasileira - Jorge Amado, Fernando Sabino - e ouvia-se muita MPB - Chico Buarque, Vinícius de Moraes.

Você tem um autor preferido?
GS: Não. Tenho vários, e mudam de acordo com minha área de interesse. Não leio por diletantismo. Por exemplo, agora estou voltado para os cronistas do RN e minha biblioteca e só crônica. Se você quiser conhecer minha biografia, tem de conhecer, primeiro, a minha biblioteca. Ela vai crescendo de acordo com os meus interesses. Tem uma parte que chamo de “cascudiana”, outra de literatura do RN, outra de história do RN.
Nossas publicações têm tiragens pequenas e os livros são difíceis de encontrar, por isso fui construindo a biblioteca. Recentemente, peguei uma parte das obras que não iria mais ler e doei à BCZM [Biblioteca Central Zila Mamede]. Eu fui um grande leitor de lá durante a graduação em Jornalismo, então foi uma forma de agradecer e de saber que se eu precisar daquele livro, ele estará lá.

Quando você decidiu fazer jornalismo?
GS: Não passei na primeira prova do Instituto Rio Branco. Foi uma frustração e voltei para casa. Eu sempre tive muito interesse por memórias. Minha avó era uma grande contadora de histórias. Minha vocação não era tanto para o direito, na forma prática, era mais intelectual, e então decidi fazer jornalismo. Em 2008, fiz a prova e passei. Minha primeira aula foi com o professor Luciano Oséas.
Foi a melhor coisa do mundo, porque tinha um site para o qual a gente precisava produzir matérias. Como eu precisava escolher um caminho para escrever, fui passeando pelas áreas, até chegar à arquitetura. Fiquei me perguntando: “Onde estão nossos artistas: Dorian Gray [Caldas], Newton Navarro?” Então decidi que escreveria sobre aquilo que não encontro para ler. E aí, em 2010, ingrssei no mestrado em Estudos da Mídia, onde trabalhei com jornalismo cultural. Fiz o mestrado e comecei a escrever sobre arquitetura potiguar, tudo ao mesmo tempo. Escrevi um livro [Arquitetura moderna potiguar, 2011].
Nele, uso muitas fotografias. Pensei esse projeto não apenas como texto, mas como forma. O espaço em que aquilo está escrito também determina a leitura. As notas, coloco de lado, para o leitor não precisar ficar baixando a cabeça. Nas falas, não uso aspas, porque quero confundir, quero integrar o meu discurso ao discurso da pessoa que está contando a história comigo, que são os arquitetos pioneiros ou moradores das primeiras casas. Eu quis inovar com esse livro.

Inovar, em que sentido?
GS: Eu sempre pensei em como fazer esse trabalho experimentando a linguagem e o estilo jornalístico. Tanto que o livro não tem capítulos, mas retrancas. E as histórias sempre têm ligação com a vida da cidade ou com a minha vida. A capa traz a casa dos meus avós, que foi uma das primeiras casas modernistas. Começo contando a história do dia em que o imóvel foi derrubado.
Não me coloco em primeira pessoa. Gosto de ser um narrador distante, mas que percebam que estou ali. No dia em que a casa caiu, vi que uma história havia se apagado. Muita coisa tinha sido vivida lá, e estava representada enquanto existia uma estrutura física. Depois, ficou uma história apenas sentimental. Aí, comecei a escrever.

Da queda da casa veio a ideia do livro?
GS: Não. A ideia do livro já existia, mas eu não sabia como contar essa história. A queda da casa foi o ponto de partida. Cheguei em casa e comecei a redigir a mão. Sempre escrevo a mão. Eu tinha a estrutura do livro. Fui para o computador e apenas complementei com as entrevistas, com os livros que já tinha pesquisado. Digo que contei a história da arquitetura moderna do RN dentro da aventura da arquitetura brasileira.

Em que livros você trabalhou depois?
GS: Tenho um colega do mestrado, Helton Rubiano, que é editor de livros e também tem interesse pela literatura potiguar. Nós conversávamos sobre como há autores importantes que não são reeditados. Aí encontrei um livro de contos chamado O solitário vento de verão, de Newton Navarro. A Natal contemporânea precisa conhecer Newton Navarro. Mas para fazer esse livro, eu precisava contar quem era esse homem.
Então, voltei para os ensaios. Mas como incluir o ensaio dentro de um livro de contos? No posfácio. Li outros livros de Newton Navarro, entrevistei pessoas, busquei notícias de jornal. Comecei esse trabalho em 2012. Nas entrevistas, encontrei pessoas que conheceram Newton Navarro. Cada um com quem eu conversei me fazia um perfil do Newton pintor, Newton cronista, porque ele foi um homem múltiplo. Pensei: “Por que não fazer um livro de depoimentos?” Aí escolhemos as personagens e começamos a fazer o livro, eu, Helton e nossa amiga Angela Almeida, que fez as fotografias.
Chama-se Saudade de Newton Navarro.  Daí conheci um grande poeta potiguar chamado Paulo de Tarso Correia de Melo, que é colecionador, e ele tinha crônicas de Newton Navarro datadas dos anos 1960. Então fizemos um livro de crônicas de Newton Navarro. Também fiz o perfil biográfico do jornalista Berilo Wanderley [Berilo Wanderley – o cronista da cidade].
E já tenho outro material. Descobri que Berilo foi estudar na Espanha em 1960 e que mandava crônicas para a Tribuna do Norte, contando como era viver por lá. Pensei que daria um livro, também. Então, continuo com o projeto de publicar grandes escritores, que também eram grandes jornalistas. A revista Bzzz me convidou para escrever sobre Zila Mamede. Descobri que Zila era um mundo.

De onde vem essa vontade de escrever sobre Natal?
GS: A casa dos meus avós ficava no limite entre os bairros de Petrópolis e Tirol. Eu circulava muito por aquela área. Frequentava a livraria do Essa, a banca do Tota. Enfim, decidi que precisava escrever um livro sobre Petrópolis. Queria escrever sobre Natal, mas era muita pretensão. Como estava lendo sobre vinhos e comida, pensei em escrever sobre pontos de Petrópolis e discutir temas. Então fiz um livro-crônica, uma grande crônica sobre esse bairro.
Brinco que é um falso guia. Falo de charuto, de chá, das bebidas, a partir dos lugares que têm no bairro, das histórias que vivi e que me contavam. Queria alguém que fizesse os desenhos. Convidei um artista da cidade, mas ele não aceitou, o que foi uma pena, porque eu queria um livro ilustrado. Inventei um guia de bairro. E comecei a ler guias, guias de literatos que faziam guias, que são idílicos, por assim dizer. Fiz em um mês, mas digo que fiz durante a vida toda, porque foi o que vivi. É um livro pequeno. Meus livros sempre são muito pequenos, como uma conversa.
Quando não acho quem faça a ilustração, faço eu mesmo. Ao mesmo tempo, eu fazia um curso de editor gráfico e precisava de um trabalho final. Decidi ilustrar meu livro. Então, digo que escrevi, fiz a pesquisa, a apuração, a redação, a edição, os desenhos, os títulos. Mas você nunca faz um trabalho sozinho. Tenho leitores-cobaias, pessoas de diferentes idades, como meu pai.
Sempre converso sobre o livro que estou fazendo. E surgem ideias. As conversas, o viver, são constitutivos da obra de um escritor. O livro [Petrópolis: Guia prático, histórico e saboroso do bairro] foi um sucesso. Rapidamente se esgotou. Na época em que produzi o livro sobre arquitetura, algumas pessoas pensavam que eu era arquiteto. Até convite para fazer reforma numa casa, recebi. Daí, desse meu interesse pela arquitetura, surgiu o interesse em escrever sobre casas, mas não sobre o aspecto físico apenas, mas sobre o aspecto sentimental, a história.

Fale um pouco dessa pesquisa.
GS: Fiz uma série curta e ofereci para a Tribuna do Norte. Mas não queria fazer o trabalho sozinho. Convidei Arthur Seabra, que é arquiteto e ilustrador, para fazer desenhos e dar outro olhar, outra interpretação, outra linguagem. Volto àquela história de que jornalismo não é só texto. Teve muita pesquisa também, porque o jornalista é um pouco antropólogo, etnólogo. A série fez sucesso e nós continuamos. No fim, fizemos 30 casas. A pesquisa vai virar um livro.

Nessas buscas, qual a maior descoberta que considera ter feito?
GS: Eu tinha muito interesse por Oswaldo Lamartine. Comecei a colecionar sua obra. Onde via um livro dele, comprava e lia. Mas comecei a perceber que existiam lacunas. Percebi que não havia livros sobre Oswaldo Lamartine, a quem Rachel de Queiroz agradece no romance Memorial de Maria Moura pela inestimável ajuda, um homem que teve correspondência com grandes escritores, um homem de grandes amizades, pesquisador responsável.
Comecei a conversar com amigos, fui a bibliotecas, achei uma coisa, achei outra. Fui lendo sobre a obra dele e descobri que as pessoas que faziam análise da obra só conseguiam chegar ao livro Sertões do Seridó. Mas e o resto? Em minhas pesquisas encontrei um elogio de Rachel de Queiroz que dizia assim: “Tenho aqui numa pastinha ao meu lado, desenhos, anotações de Oswaldo”.
Fui ao arquivo dela no Instituto Moreira Sales, no Rio de Janeiro, e comecei a encontrar coisas que não conhecíamos, que ninguém tinha visto. Ao mesmo tempo descobri cartas que Zila Mamede escreveu para Carlos Drummond, que nunca haviam sido consultadas. Faço esses dois trabalhos ao mesmo tempo. Levanto Oswaldo, as relações dele, e escrevo sobre Zila. O máximo de informações que colho, apresento aqui em Natal. São trabalhos que têm começo, mas demoram a ter fim.

O mercado da literatura potiguar é...
GS: Riquíssimo. Newton Navarro foi tão bom quanto Rubem Braga. Mas falta divulgação. As pessoas não conhecem. Não valorizamos o que temos. Porque, no momento que você sabe quem Navarro é, que ele tem uma crônica de qualidade e que está disponível, você terá interesse.

Como é a sua relação com outras plataformas, como os e-books?
GS: O livro sobre arquitetura tinha essa proposta. Mas fui convencido por Helton Rubiano, o editor, que era para leitor de impresso. Penso que cada plataforma veio para somar, e não dividir. É outra mídia, na qual tudo que é compartilhado vira algo perene. Criam-se conexões. As mídias convivem, mas cada plataforma tem linguagens que precisamos explorar. O público do aplicativo pode ser o mesmo do livro, mas vai receber o conteúdo de forma diferente.

As suas leituras são mais voltadas à pesquisa ou você reserva momentos à leitura por mero prazer?
GS: Sempre que leio, estou me divertindo, mas, ao mesmo tempo, analiso, investigo. Rachel de Queiroz dizia que não era escritora, era jornalista. Ela publicou muito mais crônicas do que romances, e ninguém olhou para isso. Então, por que não investigar a  Rachel jornalista? Fiz esse trabalho também; li tudo de Rachel de Queiroz.

Na sua opinião, a literatura salva?
GS: Salva. Como dizia Ferreira Gullar, porque a vida não basta.

 
[1] Esta entrevista integra o e-book Jornalistas escritores do RN: entrevistas, organizado por Socorro Veloso e John Willian Lopes. Natal: Editora Tribo, 2017. p.83-93

domingo, 14 de maio de 2017

FELIZ DIA DAS MÃES


MÃE

Mãe
devo-te este poema
que sempre
seguirei querendo
escrever
 
esperei fazê-lo
em toda a minha vida
 
esperei o sol
e a lua
 
e ambos passaram
e voltaram
com palavras mudas
douradas e
pálidas
 
versos
trouxeram-me as estrelas
o mar
e os rios
 
versos que devolvi
aos livros
e ao tempo
que os prendia
 
mas o teu poema
estava sempre
aquém e além do tempo
 
e a voz para dizê-lo
não me pertencia
 
mas vi-o
em teu ventre
onde vi nascerem
as dimensões da vida
 
e as dimensões
de Deus
 
e se o amor triunfa
em caminhos infinitos
 
não pode haver começo
ou fim
para o teu poema
 
 

                                                    (Horácio Paiva)

sábado, 13 de maio de 2017

ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA - LEI ÁUREA


A História da Abolição da Escravatura, a Lei Áurea, Movimento Abolicionista, 13 de maio, libertação dos escravos, História do Brasil, abolição dos escravos, escravidão no Brasil, os abolicionistas, escravos no Brasil, Lei do Ventre Livre



Princesa Isabel: assinou a Lei Áurea em 13 de maio de 1888

Introdução 

Na época em que os portugueses começaram a colonização do Brasil, não existia mão-de-obra para a realização de trabalhos manuais. Diante disso, eles procuraram usar o trabalho dos índios nas lavouras; entretanto, esta escravidão não pôde ser levada adiante, pois os religiosos católicos se colocaram em defesa dos índios condenando sua escravidão. Assim, os portugueses passaram a fazer o mesmo que os demais europeus daquela época. Eles foram à busca de negros na África para submetê-los ao trabalho escravo em sua colônia. Deu-se, assim, a entrada dos escravos no Brasil. De acordo com historiadores, entre 1530 e 1850, cerca de 3,5 milhões de negros africanos foram trazidos para o Brasil para trabalharem como escravos.

Processo de abolição da escravatura no Brasil 

Os negros, trazidos do continente Africano, eram transportados dentro dos porões dos navios negreiros. Devido as péssimas condições deste meio de transporte, muitos deles morriam durante a viagem. Após o desembarque eles eram comprados por fazendeiros e senhores de engenho, que os tratavam de forma cruel e desumana.  

Apesar desta prática ser considerada “normal” do ponto de vista da maioria, havia aqueles que eram contra este tipo de abuso. Estes eram os abolicionistas (grupo formado por literatos, religiosos, políticos e pessoas do povo); contudo, esta prática permaneceu por quase 300 anos. O principal fator que manteve a escravidão por um longo período foi o econômico. A economia do país contava somente com o trabalho escravo para realizar as tarefas da roça e outras tão pesados quanto estas. As providências para a libertação dos escravos deveriam ser tomadas lentamente.

A partir de 1870, a região Sul do Brasil passou a empregar assalariados brasileiros e imigrantes estrangeiros; no Norte, as usinas substituíram os primitivos engenhos, fato que permitiu a utilização de um número menor de escravos. Já nas principais cidades, era grande o desejo do surgimento de indústrias.Visando não causar prejuízo aos proprietários, o governo, pressionado pela Inglaterra, foi alcançando seus objetivos aos poucos. O primeiro passo foi dado em 1850, com a extinção do tráfico negreiro. Vinte anos mais tarde, foi declarada a Lei do Ventre-Livre (de 28 de setembro de 1871). Esta lei tornava livre os filhos de escravos que nascessem a partir de sua promulgação.

Em 1885, foi aprovada a lei Saraiva-Cotegipe ou dos Sexagenários que beneficiava os negros de mais de 65 anos. Foi em 13 de maio de 1888, através da Lei Áurea, que liberdade total finalmente foi alcançada pelos negros no Brasil. Esta lei, assinada pela Princesa Isabel, abolia de vez a escravidão no Brasil.

A vida dos negros brasileiros após a abolição

Após a abolição, a vida dos negros brasileiros continuou muito difícil. O estado brasileiro não se preocupou em oferecer condições para que os ex-escravos pudessem ser integrados no mercado de trabalho formal e assalariado. Muitos setores da elite brasileira continuaram com o preconceito. Prova disso, foi a preferência pela mão-de-obra europeia, que aumentou muito no Brasil após a abolição. Portanto, a maioria dos  negros encontrou grandes dificuldades para conseguir empregos e manter uma vida com o mínimo de condições necessárias (moradia e educação principalmente).

Você sabia?

- 23 de agosto é o Dia Internacional em Memória do Tráfico de Escravos e sua Abolição.

- Antes de ser assinada pela Princesa Isabel, a Lei Áurea foi aprovada no Senado com apenas um voto contrário. Na Câmara dos Deputados a lei teve 83 votos favoráveis (de um total de 92).

- Nosso país foi o último a acabar com a escravidão.

FONTE: