quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

DE FERIADO, DIDEROT E CHICO DE BRITO

Valério Mesquita*

01) Os feriados estão acabando com esse país. O Brasil é uma nação intestinal. Consumista. Carnavalesca. País do ponto facultativo. Se você somar os feriados brasileiros em cada ano  e o que se deixa de produzir no comércio, na indústria, na agricultura, na administração pública, enfim, em todos os setores de trabalho da vida nacional, vai achar um prejuízo abissal incalculável e irrecuperável. Com tanta perdularidade até parece que somos uma pátria rica. Só vou acreditar nas mudanças se ocorrer também uma reforma no calendário extinguindo alguns feriados, estaduais, federais e municipais. Cada país tem uma única data nacional. Qual a data nacional do Brasil? A Independência, Tiradentes ou a Proclamação da República? Escolha-se a mais importante e se dê o feriado. Feriar os três eventos é subcultura, subdesenvolvimento. Celebrar sim, feriar nunca. Isso porque, quem comemora o 15 de novembro, o 21 de abril? Ah, sim, as praias, o ócio porque as escolas, os governos, são os primeiros a fugirem e a esquecerem. Feriado religioso, por exemplo: praias cheias e igrejas vazias. O Brasil tem a sua santa padroeira. Tudo bem. Mas, milhares de municípios têm padroeiros e padroeiras. Alguns têm até dois ou três padroeiros de uma só vez. E pegue feriado. Negócio de português. De mameluco. De aristocracia politíco-religiosa decadente de tempos inquisitórios. Que se celebre o dia do padroeiro(a) mas, pra quê vadiar? O melhor lema é: viva o santo, viva a santa mas, viva também o trabalho e a produtividade. É preciso acabar com essa concepção consuetudinária e chula dos portugueses colonizadores. O mundo é outro. Estamos no final de um milênio e ainda adotamos as mesmas práticas de trezentos, quatrocentos anos atrás. Se você comparar o número de feriados nas nações do primeiro mundo com o do Brasil fica estarrecido. Não me venha com esse negócio de tradição, da índole do povo etc. E se for a índole a culpada, é índole ruim, caráter preguiçoso, embromador, cuja lei da vantagem deve ter nascido num feriado. O único feriado que o brasileiro obedece é o do carnaval. Aí sim, você olha o calendário e o povo, e acha a sintonia, a harmonia, a simbiose da data com a mentalidade. O único presidente que levou o país a sério foi Humberto de Alencar Castelo Branco. Enfrentou o preconceito dos medíocres, extinguindo vários feriados fanfarrões. Mas, ainda falta. Um dia esse país cria vergonha. Aleluia!
02) Diderot, o irreverente enciclopedista francês, ateu anticlerical e opositor ferrenho da monarquia, gostava de repetir que “só haverá paz e sossego no mundo quando o último rei for enforcado com as tripas do último padre”. Radicalismo nefasto igual a esse só se encontra semelhança em alguns políticos potiguares quando tratam da própria sobrevivência eleitoral. Dir-se-ia que a antropofagia virou Estado de Direito. E quando se trata das coligações políticas, “chapões” e alijamentos, a humanidade se prodigaliza no exercício do mal ao próximo e até ao distante. À propósito, a lei eleitoral é tão confusa, infusa e difusa que, em vez de inovar,  restaurou um malefício de há muito banido da legislação: a reeleição, o bicho papão retrógado, devorador de candidatos e deformador da representatividade política. Essa excrescência me devolve a lembrança enodoada da legislação discriminatória dos tempos do bipartidarismo, das legendas, sublegendas e do voto vinculado. Com a nova legislação eleitoral, os partidos se tornam presas fáceis de manobras casuísticas ao bel prazer de “igrejinhas” de candidatos cativos, nativos e muitos nocivos. Ou aplaudir e ser cúmplice ou protestar e ser vítima. Semana passada protestei e ouvi em defesa desse imblógrio, a declaração astuta mas fajuta de que para entrar na disputa o candidato tinha que apresentar densidade eleitoral. Perguntei de imediato, onde conseguir tal atestado. E isso me fez novamente recorrer ao rabugento Diderot quando, moribundo, no leito de morte, recebeu a visita de um padre trazido por amigos como misericórdia diante do último momento. Disse-lhe o sacerdote: “Vim confessá-lo em nome de Deus!!”. Diderot abriu um olho e num último esforço de maledicência, balbuciou: “Mostre-me as credenciais!!”. Do mesmo modo, na bendita lei de Chico de Brito, para ser candidato a qualquer posto, o postulante não se submete mais ao vestibular da ficha suja. Do contrário, quem está fora não entra e quem está dentro não quer sair. É a lei de Chico de Brito. O Diderot das Caatingas.

(*) Escritor.

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