sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar, um sujinho no poema

04/12/2016



texto Gustavo Sobral e ilustração Arthur Seabra

Não é nada cascão, ou tem aversão à água e às coisas da limpeza e higiene, como sabão, escova, lavanda e coisas afins. Nasceu que nem rojão, o poema, assim longe de casa, apesar de falar da casa, e da casa maior que é a cidade, e longe de todo mundo, longe até da língua portuguesa, porque estava o poeta no exílio lá no Chile. Nasceu assim, o poema, sujo, mas com sujo de mangue, de mangue de sua cidade São Luís do Maranhão, um sujo de vida do negrume cinzento do mangue.

Um poema de enxurrada, em que pingos-palavras fizeram-se chuva-poema de nuvens formadas pelo sentimento cerebral do poeta Ferreira Gullar. Um longo poema de São Luís e da vida do poeta. Quarta entrevista da série entrevistas imaginadas, quando se falará de e com poetas e escritores, pelo que já disseram em seus versos e prosa, por isso, imaginadas, mas nunca imaginárias, porque o fundo da verdade é o que já disse e está estampado no que já disseram. Entrevistamos o poeta no seu Poema Sujo.

Entrevistador: Poeta, e as coisas?
Ferreira Gullar: Cada coisa está em outra coisa da sua própria maneira e de maneira distinta de como está em si mesma.

Entrevistador: Plantas e rosas que crescem no quintal, fendas da vida?
FG: Da lama à beira das calçadas, da água dos esgotos cresciam pés de tomate, nos beirais das casas sobre as telhas cresciam capins mais verdes que a esperança (ou o fogo dos teus olhos), a vida explode por todas as fendas da cidade.

Entrevistador: Em quantos dias há um dia, poeta?
FG: Muitos, muitos dias há num dia só porque as coisas mesmas os compõem.

Entrevistador: Fácil de entender?
FG: Fácil de entender mas difícil de penetrar no cerne de cada um desses muitos dias porque são mais do que parecem pois dias outros há ou havia...

Entrevistador: Mas como entender?
FG: Não é possível estabelecer um limite a cada um desses dias de fronteiras impalpáveis feitos de – por exemplo – frutas e folhas, frutas e folhas que em si mesmas são um dia.

Entrevistador: E a noite, poeta?
FG: Numa noite há muitas noites mas de modo diferente de como há dias no dia (especialmente nos bairros onde a luz é pouca) porque de noite todos os fatos são pardos.

Entrevistador: E por que noite?
FG: De noite, porque a luz é pouca... a noite nos fez crer (dada a pouca luz) que o tempo é um troço auditivo. Menos, claro, as palafitas da Baixinha, na margem da estrada de ferro, onde não há água encanada: ali o clarão contido sob a noite não é como na cidade, é punho da vida fechado dentro da lama.

Entrevistador: De qual cidade, a sua cidade?
FG: Ah, minha cidade suja de muita dor em voz baixa de vergonhas que a família abafa, minha cidade doída.

Entrevistador: Doída, mas também móvel?
FG: Sim, e do mesmo modo que há muitas velocidades num só dia, e nesse mesmo dia muitos dias.

Entrevistador: E o homem, na cidade?
FG: O homem está na cidade como uma coisa está em outra e a cidade está no homem que está em outra cidade. Mas variados são os modos como uma coisa está em outra coisa.

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