domingo, 4 de dezembro de 2016


Estação ferroviária de Papary

02/12/2016



texto Gustavo Sobral e ilustração Arthur Seabra

Não vem mais o trem de ferro, comendo o espaço com fumaça esbaforida de sua chaminé ambulante, trazendo carga, puxando gente, comendo léguas no leva e traz da vida e das coisas que se precisa. Seu sossego é temporário e se chama estação. É ali que, para embarque e desembarque, se vê a vida, nos abraços de despedida, na alegria da chegada.

Só ele, trem máquina, sabe que a vida é uma plataforma, tem sempre gente que chega, gente que parte, certo de que tudo flui e nada perecerá, por isso silencia, se acalma, sossega o sopro quando para. Nesse caminho, de ponto em ponto, serpenteia pela sua estrada de ferro, caminho único e traçado que o leva sempre ao mesmo destino provisório e temporário, o espaço da estação. Entre apitos assinalados de seu movimento, uma parada numa pequena cidade foi seu pouso, Papary, que não se chamava município de Nísia Floresta/RN, a augusta educadora brasileira, e guardou a estação no tempo da memória.

O estilo antigo do prédio é de 1881, de um Brasil ainda escravo, monarquista e à beira de mudar tudo isso para abolicionista e republicano. Por ela todo esse movimento se passou no meio do canavial que a cerca de verde e preserva o silêncio que hoje conserva como a estrutura da estação, dizem que projeto e execução de engenheiros ingleses por encomenda do presidente da província, tudo parte de um plano de ligar o país por ferrovias e de se desenvolver o estado por estradas de ferro.


Alvenaria e tijolo desenharam uma construção de sabor neoclássico e com arcos, frontão triangular com óculo, platibandas, portas frontais, duas maiores e outras menores, e janelas, cobertura de quatro águas, patrimônio histórico tombado e restaurado nos detalhes, o piso é o mesmo, a cor amarela, que brilha no canavial e a caixa d’água de ferro, que rasga o céu plano, própria para abastecer as locomotivas. O trânsito que se mantém depois de desativada, um século depois, é para o restaurante, que lá funciona com mesas sobre os trilhos e comida regional.

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