terça-feira, 7 de março de 2017

Fernando Pessoa, o nada que é tudo

24/02/2017



texto Gustavo Sobral e ilustração Arthur Seabra

Foi Fernando, antes de ser Pessoa – dito assim por Saramago, outro super Camões. E de pessoa passou a mito no retrato que se apaga no tempo, enquanto o tempo lhe constrói o mito. É aquilo mesmo que ele vaticinou em Mensagem, único livro publicado em vida: é o nada que é tudo. Sua poesia não publicada é cânone e um arrepio de descoberta. É bom que se adiante que foi um sendo vários. Criou poetas imaginados com nome, personalidade, vida e poesia. Fernando Pessoa não foi uma só voz, foi muitas. Todas as possíveis. Haroldo de Campos, Alberto Caieiro, Ricardo Reis. Três deles.

Décima segunda entrevista da série entrevistas imaginadas, quando se falará de e com poetas e escritores, pelo que já disseram em seus versos e prosa, por isso, imaginadas, mas nunca imaginárias, porque o fundo da verdade é o que já disse e está estampado no que já disseram. O entrevistado da vez, como se disse, é poeta, é português, é Fernando Pessoa. Poeta da beleza e dos mistérios da vida. Aqui respostas do poeta em versos colhidos em antologias.

Entrevistador: Fernando Pessoa por Fernando Pessoa?
Fernando Pessoa: Este que aqui aportou foi por não ter existido.

E: E o que é de tudo na vida para acontecer?
FP: Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

E: E Portugal?
FP: Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!

E: Deus deu ao mar perigo e abismo, não foi poeta?
FP: Mas nele é que espelhou o céu.

E: E o mar?
FP: ó mar salgado, quanto do seu sal são lágrimas de Portugal!

E: E aqueles que acenam um lenço de despedida?
FP: São felizes: têm pena... eu sofro sem pena a vida.

E: E o poeta, quem é?
FP: É um fingidor.

E: Fingidor?
FP: Finge tão completamente e que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.

E: E você, poeta, finge?
FP: Dizem que eu finjo ou minto tudo o que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação.

E: E quem é que deve sentir?

FP: Sinta quem lê!

E: E o que fazer da vida?
FP: Dorme, que a vida é nada! Dorme que tudo é vão!

E: Um conselho, poeta?
FP: Cerca de grandes muros quem te sonhas.

E: Liberdade para o poeta, é...
FP: não cumprir um dever, ter um livro para ler e não fazer!

E: És o que poeta? [Álvaro de Campos, um dos heterônimos toma a palavra, e responde]
Álvaro de Campos: Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

E: E quem foi tu, Álvaro de Campos?
AC: fui como ervas, e não me arrancaram.

E: E o que faz da vida?
AC: enquanto não morro, falo e leio.

E: E o que lhe ensinou a vida? [Alberto Caeiro, outro heterônimo, toma a palavra]
Alberto Caeiro: eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: as coisas não têm significação: têm existência.

E: E foi feliz?
AC: fui feliz porque não pedi cousa alguma, nem procurei achar nada.

E: Afinal, o que escreve a pena do poeta? [surge então Sá Carneiro, outro heterônimo, e encerra a entrevista, respondendo por todos]
Sá Carneiro: tenho uma pena que escreve aquilo que eu sempre sinta... se é mentira escreve leve. Se é verdade, não tem tinta.

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