quarta-feira, 24 de abril de 2019

A noite dos museus
Em 2007, quando passei uma temporada de estudos na Espanha (Madrid e Barcelona, sobretudo), como bolsista do programa “Aula Iberoamericana del Consejo General del Poder Judicial Español”, tive a oportunidade de curtir, na capital do país, uma “Noche em Blanco”. Esclareço logo: é um evento cultural que ocorre anualmente em cidades da Europa (primeiramente em Paris, desde 2002) em que museus, casas de cultura e outras instituições locais importantes, espaços públicos ou privados, abrem suas portas, gratuitamente, durante toda a noite, para o público em geral. Paralelamente, outras atividades culturais e artísticas – shows, concertos, essas coisas – são realizadas dentro e ao derredor dos prédios mui iluminados. E você sai a pé, pulando de local em local, de show em show, mui amimadamente. Se não me engano, aquele ano, 2007, era o primeiro ou o segundo em Madrid. E foi tudo excelente.
Passados tantos anos, tive a oportunidade de repetir a experiência, agora em Buenos Aires, no que eles chamam, os portenhos, de “La Noche de los Museos”. Foi no dia 10 de novembro de 2018. Nesse dia, a partir das 20 horas, segundo informava o próprio Chefe de Governo da Cidade Autônoma de Buenos Aires, 280 espaços culturais abririam “suas portas à noite e gratuitamente para que os moradores [e os turistas, como era o meu caso] desfrutassem da arte que se respira em cada bairro da Cidade”. Haveria “atividades e exposições para todas as idades e gostos”. E, nessa edição, “as obras falariam do futuro, incorporando as novas tecnologias e abordando debates centrais para os anos vindouros, como o papel da mulher, o cuidado com o meio ambiente e a integração entre os povos”.
E já tem quinze anos que esse tipo de evento é realizado na capital argentina, segundo registra a brochura que guardei comigo (cronista precavido é assim!). Eu não sabia.
Foi bom (muito) e foi ruim (um pouquinho). E, quem leu a minha crônica da semana retrasada, já deve intuir o porquê. Nesse fatídico 10 de novembro, choveu aos cântaros em Buenos Aires. Não tanto à noite como choveu de dia, é verdade. Mas chuva é chuva.
De toda sorte, aproveitamos bastante. Começamos nossa perambulação coisa de 21 horas. Concentramos a aventura numa tal Área 1 (a cidade estava dividida em cinco regiões), em torno dos bairros de Monserrat, de San Telmo e do Microcentro, tudo muito perto do pequenino Two Hotel Buenos Aires (Calle Moreno, 785), onde estávamos hospedados. Fizemos tudo a pé. Mui animadamente, quase sempre. Voltamos pela enésima vez ao interessantíssimo “Museo Histórico Nacional del Cabido de Buenos Aires e de la Revolución de Mayo” (Boliviar, 65). Minha mulher já não aguenta mais. Visitamos a gigantesca sede do “Banco de la Nación Argentina”, onde funciona um museu histórico e numismático. Belíssima. E uma apresentação de coral de música sacra me encantou deveras. Fomos a um tal “Museo de Minerales” (Julio A. Roca, 651). O show de rock na porta, regado a uma cervejinha, nos interessou mais do que o acervo. Fomos ao prédio da “Legislatura de la Ciudad Autónoma de Buenos Aires” (Julio A. Roca, 575). Também belíssimo. Talvez mais do que isso. E visitamos a sede e a editora do “Consejo de la Magistratura de la Ciudad Autónoma de Buenos Aires”. Ganhei um bocado de livros. Gostei mais do que muito. E esses são apenas alguns dos prédios públicos dos quais lembro termos visitado.
Tivemos algumas frustrações, claro. A “Casa Rosada” (Calle Balcarce 50, dominando a Plaza de Mayo) foi uma delas. Não me lembro de já haver visitado o badalado palácio presidencial. Era uma ótima oportunidade. Entramos na fila, ainda pequena. Mas choveu. Minha mulher desistiu. Falou algo do cabelo, acho. Mais uma vez ela não acompanhou o que eu chamo de minha resiliência (na ocasião, ela chamou de outra coisa, iradamente). Teremos outra oportunidade, seguramente.
Mas a maior das decepções foi nos ter sido vedado o acesso a certas áreas de uma tal “Manzana de las Luces” (Calle Perú, 272), ao belo claustro jesuítico e aos famosos túneis, em especial. Segundo retrata o meu “Guia Visual Folha de São Paulo – Top 10 – Buenos Aires” (PubliFolha, 2010), no “coração histórico da cidade, a Manzana de las Luces é um complexo de edifícios governamentais e jesuíticos que datam de meados do século 17. Entre eles, está a Igreja de San Ignacio, a mais antiga da cidade, construída em 1668, o claustro do antigo Colégio dos Jesuítas, a Sala de Representantes e o Colégio de Buenos Aires. Sob os prédios correm os túneis construídos na década de 1690 para ligar o local à Plaza de Mayo”. Já é bem a terceira vez que vamos a Buenos Aires, e eu me programo, tento, mas não consigo conhecer certas partes da velha “manzana”. Simplesmente, virou uma questão de honra. Tomamos mais chuva. E nada. Fomos barrados a certa altura. Não sei se foi o cabelo ou se não gostaram do meu – digamos, impuro – castelhano de Salamanca.
Por sorte, terminamos a noite, já entrando pela madrugada, ali pertinho, na “Librería de Ávila” (Calle Adolfo Alsina, 500), sobre a qual eu já escrevi nas crônicas “Minhas livrarias em Buenos Aires (I) e (II)”. Um comércio de livros cheio de história, que ocupa o local onde outrora funcionou a famosa “Librería del Colegio”, oficialmente aberta em 1830 e tida como a primeira livraria da cidade. Com a sua atmosfera propositadamente decadente, declarada “Lugar Histórico Nacional”, a “Librería del Colegio/de Ávila” é realmente imperdível.
E ali enfrentei, com a minha velha resiliência, uma certa frustração, a chuva e, sobretudo, o cabelo e a ira da minha mulher.

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Mestre em Direito pela PUC/SP

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