quarta-feira, 23 de março de 2016

Macaúbas: tricentenário de um mosteiro mineiro, com influência alagoana. 
 *Olegário Venceslau da Silva

Os pálidos e contumazes ventos remontam às antigas vielas duma antiquíssima Penedo, que se banha amiúde no frescor das mansas águas do Velho Chico, com suas manias de curvas. Sob o orago perpétuo de santos católicos e olhares contemplativos das desbotadas e seculares torres das igrejas locais, feito sentinela permanente a guardar seus filhos, que transitam sobre íngremes ruas de pedras sobrepostas, e descansam suas fadigas à sombra dos casarios barrocos quando dos dias quentes e ofegantes da bucólica cidade interiorana, com traços aristocráticos e opulência imperial, que fazem jus àquela comuna nativista. As sapientes palavras do poeta Castro Alves, num linguajar sonetista traduzia com perfeição e síntese o tempo, em suas mais diversas formas – “o século é grande no espaço” – e a grandeza do amontoado dos anos escrevia com fulgurante pena a história e destino dum camponês ribeirinho, cuja missão quiçá profética, levou-o a caminhos, a paragens desconhecidas e não menos inimaginável. Nos longínquos idos de 1708, ainda sob os auspícios de um Brasil colonial e campesino, arraigado aos costumes medievos na então capitania de Pernambuco – hoje Alagoas – o conhecidíssimo clã dos Soares da Costa, liderado pelo Capitão Manoel e seu irmão Félix, abandonam o regaço materno após o desaparecimento de seu genitor, e num misto de êxtase e olhar visionário ambos rumam às plagas mineiras, pelos caudalosos caminhos do Rio São Francisco margeando povoados e vilarejos do baixo sertão nordestino, imersos pela ausência de mantimentos, inclemência de uma terra ressequida e paupérrima, mas sobretudo pelo apogeu da fé de seu povo, cujo percurso configurou-se em uma verdadeira peregrinação, que lhes tomaram três longos anos de viagem. 

 Quais andarilhos guiados diuturnamente por constantes devaneios, finalmente arriam seus pertences – feito nau errante ao atracar no cais – no então sítio Macaúbas, em 1711. De profunda devoção mariana, estritamente ligada a Imaculada Conceição, o sertanejo das quebradas da alagoana Penedo, Félix da Costa Soares, é tomado por reluzente miragem quando de sua travessia às margens do Rio das Velhas, cujo sinal metafísico remetia à figura eremita de um homem, vestido no hábito branco, tendo por sobre si um escapulário e revestido num finíssimo manto azulado, trazendo sobre a fronte um pequeno chapéu caído nas costas. Num transe quase que involuntário, o beato Félix entendia doravante a missão a ele outorgada. No ano seguinte, após um período de contemplação e clausura, imerso em orações e fervorosas súplicas resolve seguir caminho em direção ao Rio de Janeiro, no intuito de ser atendido em audiência por Dom Francisco de São Jerônimo, então bispo daquela Província. Entre narrativas e petições auriculares sobre o pretérito episódio, Félix da Costa recebe autorização eclesiástica para a construção de uma ermida sob a invocação de Nossa Senhora e posteriormente transformado em recolhimento, bem como o uso perene do hábito da Ordem da Imaculada Conceição, cujo sonho materializou-se devido as esmolas colhidas e guardadas num singelo cofre que trazia junto de si, pendurado no peito. Durante décadas a fio, a obra fora erigida nas vastas campinas das Minas Gerais, serviu de recolhimento para irmãs religiosas, se tornou no século XIX o primeiro colégio para meninas e moças daquela capitania do sudoeste brasileiro, cuja função precípua era a educação, o preparo das jovens para o casamento, proteger órfãos e viúvas desamparadas. Nele se instalam diversas noviças, recebendo em seus átrios as nove filhas da ex-escrava e senhora do Arraial do Tijuco, Chica da Silva, entregue aos cuidados das religiosas da Ordem de Nossa Senhora da Conceição. 

Passados três séculos desde sua fundação [1712 -2015] cada espessa coluna daquele monumento arquitetônico dão um testemunho eloquente, dos incontáveis dias de glória e árduas conquistas a suor e lágrimas, conservando no seu interior histórias de um homem – Félix da Costa Soares – nascido nos recônditos boqueirões de uma Alagoas ribeirinha e bucólica, cujo destemor e intrépida fé fizeram-no cravar em solo mineiro o estandarte multicolorido da religiosidade popular e educação feminina, perenizando desta forma um sonho que sobreviveu às agruras e intempéries da vida. 

* Escritor, advogado, membro da Academia Maceioense de Letras, Academia Alagoana de Cultura, Comissão Alagoana de Folclore e sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Espírito Santo e Paraná .

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