sábado, 15 de julho de 2017


PERDEMOS O CANTO E O ENCANTO

Valério Mesquita*

Claro que me refiro à campanha política eleitoral nas ruas, nas praças, nos dias e noites, nas estações de rádio e televisão. Se comparada às dos anos sessenta, setenta, e colocadas na vitrine a performance, a beleza plástica, humana, visual e emocional – a de hoje não vai valer sequer 1,99. A oratória fluente, candente e sedutora de ontem que enfeitiçava o povo, dividido nas cores e gestos dos seus líderes, apontava caminhos e ideais que não retornam mais. Enquanto a de agora forma uma grossa cascata de interesses, os líderes daquele tempo sabiam atravessar as noites escuras como se soubessem mais do que o próprio peso, o peso das sombras, a cor do vento e o segredo das estações da política. Aluízio, Dinarte, Georgino, Lamartine, José Augusto, catalisavam e irradiavam energias criadoras, como Djalma Marinho, Dix-Huit Rosado e Cortez Pereira ofertavam cultura e saber humanístico.
Se alguém redarguir que o melhor político é o político morto, respondo que não. Vale, atualmente, aquele que sabe humanizar o horror do mundo. Silenciar a memória de um líder ou o seu tempo é a maior revelação de nossa omissão e covardia. Aluízio Alves, por exemplo, com suas músicas, passeatas, carreatas, sabia decifrar os signos da política. Traçava as marcas do seu talento vasto no mesmo tom de sua ira, modelando aí a sua imagem pessoal, naquele mundo de temperaturas e temperamentos em que viveu – de pressões e tensões, tal e qual um meteoro lírico da natureza humana, impossível de ser reinventado. Já Dinarte Mariz foi fiel à palavra dada e à humanidade tida. Em sua vida viveu as descobertas sucessivas dos homens e das coisas do Rio Grande do Norte. Os dois líderes acharam a palavra que, dita nas ruas, nas estradas e nos campos, envolvia a unidade do gênero humano.
Hoje não. Reina a dispersão. A alma não é vasta e a obra é imperfeita, parafraseando Fernando Pessoa. Teríamos perdido os caminhos e os sonhos? São raríssimos os sobreviventes do carisma, do glamour, do charme, das passadas tradições da arte política potiguar, emocional e lírica. Mas, concordo com a assertiva de que a legislação eleitoral pôs freios e desligou a alta voltagem da vibração popular e os curtos-circuitos da classe política, caídos na vala comum da improvisação, da futilidade e da lei de Gérson. Participei, desde 1960, de muitas lutas políticas sem nunca haver perdido na memória e nos olhos o brilho das multidões em delírio, sem medo de atravessar as ruas. Acabou-se, - pode o leitor averiguar - pois é difícil se achar hoje a íntima e apaixonada identificação entre o eleitor e o candidato. Morreu aquela parceria de relação íntima e confiável que preside a sensibilidade de cada um.
Eu digo isso porque é o que fica e se transfunde na condição humana de optar, escolher e votar no candidato. O político parece haver largado o sotaque do povo e dos seus costumes, que o “feiticeiro” Aluízio sabia fazer com humor e ironia. Embora entenda que o político às vezes é como o fogo (“se renova das cinzas”). Vemos hoje na propaganda novos vultos e ambientes difusos, mas também a sociedade viúva ainda de líderes verdadeiros. As lideranças viraram sublegendas. Parece haverem desaprendido o caminho das pedras e das veredas dos votos. A minha esperança é a de que os agentes partidários da atualidade possam reinventar o fluxo virtual da sua atividade sem a politiquice militante, inspirando-se na autenticidade de espírito dos velhos líderes, com grandeza interior. Porque eles foram dotados de poderes mágicos, a ponto de terem no semblante e nos gestos o sentido e o rumor do humano, da paisagem e do tempo. Sem nostalgia, ouço ainda as canções eternas e chego à conclusão, apesar de tudo, que todos eram felizes e não sabiam. E viva Lulu Santos: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia...”.


(*) Escritor

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