12/05/2013


"Se alguém não acreditar que Maria é a mãe de Deus..."
Uma Visão histórica da formação do dogma
Fonte: Maria, Um espelho para a Igreja
Autor: Raniero Cantalamessa
No Novo Testamento não encontramos explicitamente o título "Mãe de Deus" dado a Maria. Encontramos aí, porém, afirmações que em seguida vão mostrar a reflexão atenta da Igreja, guiada pelo Espírito Santo, já conterem In Nuce esta verdade. Como já vimos, afirma-se que Maria concebeu e deu a luz um filho que é o Filho do Altíssimo, santo e Filho de Deus (Cf. Lc 1,31-32.35). Resulta dos Evangelhos , pois, que Maria é a mãe de um filho do qual se sabe que é o Filho de Deus. Nos Evangelhos ela é comumente chamada de Mãe de Jesus, mãe do Senhor (cf. Lc 1,43), ou simplesmente "a mãe"e "sua mãe" (Cf. Jo 2,1-3). Será preciso que a Igreja, no desenvolvimento da sua fé, esclareça para si mesma quem é Jesus, antes de saber de quem Maria é mãe. Evidentemente Maria não começa a ser Mãe de Deus no concílio de Éfeso de 431, como Jesus não começa a ser Deus no Concílio de Nicéia em 325, quando foi assim definido. Já antes era Mãe de Deus. Mas aquele é o momento na qual a Igreja, no desenvolvimento e na explicitação de sua fé, pressionada pela heresia, toma plena consciência dessa verdade e se posiciona a respeito. Acontece como na descoberta de uma nova estrela : esta não nasce no momento em que sua luz chega à terra e é percebida pelo observador; já existia antes,talves milhares de anos luz é colocada no candelabro do credo da Igreja.
Nesse processo, que leva à proclamação solone de Maria como Mãe de Deus, podemos distinguir três grandes fases que agora vou apontar.
A maternidade "física"de Maria : Época antignóstica
No começo e em todo o período dominado pela luta contra a heresia gnostica e docetista, a maternidade de Maria é considerada quase unicamente como maternidade física. Esses hereges negavam que Cristo tivesse um verdadeiro corpo humano e se admitiam que ele tinha um verdadeiro corpo humano, negavam que esse corpo tivesse nascido de uma mulher, negavam que verdadeiramente tivesse surgido de sua carne e de seu sangue. Contra eles era , pois, necessário afirmar com força que Jesus era filho de Maria e "fruto de seu ventre" (Lc 1,42), e que Maria e a mãe verdadeira e natural de Jesus. de fato, alguns desses hereges admitiam que Jesus tivesse nascido de Maria, mas que nao tivesse sido concebido em Maria, isto é, da sua mesma carne. Segundo eles, Cristo tinha nascido através da Virgem, e não da Virgem; "colocado pelo céu na Virgem, saiu dela mais como quem passa do que como quem é gerado, através dela, nao dela, tendo na Virgem nao uma mãe ,mas um caminho" (Tertuliano, Contra os Valentinianos 27,1 [CC2, p. 772] ). Maria "não teria trazido Jesus no ventre como filho, mas como hóspede" (Tertuliano, Sobre a Carne de Cristo 21,4 [ CC2, p. 911] ).
Nesta fase mais antiga, a maternidade de Maria serve principalmente para demonstrar a verdadeira humanidade de Jesus. Foi nesse período e neste clima que se formulou o artigo do credo "Nascido (ou encarnado) do Espirito santo e da Virgem Maria". Originalmente esse artigo queria dizer simplismente que Jesus é Deus e Homem: Deus,enquanto gerado segundo o Espirito, isto é, por Deus; homem, enquanto gerado segundo a carne, isto é, por Maria.
A maternidade "metafisica"de Maria : época das grandes controvérsias cristológicas
Na fase mais antiga, quando se afirma a maternidade real ou natural de Maria contra os gnosticos e docetas, surge o Título de Thetókos. De agora em diante, o uso deste título levará a Igreja à chamar de maternidade divina mais profunda, que poderíamos chamar de maternidade metafísica. Isto aconteceu na época das grandes controvérsias cristológicas do quinto século, quando o problema central sobre Jesus cristo já não era de sua verdadeira humanidade, mas o da unidade de sua pessoa. A maternidade de Maria não é mais considerada só em relação da natureza humana de Cristo mas, o que é mais correto , em relação a única pessoa do Verbo feito homem. E como esta única pessoa divina do Filho, consequentemente ela é verdadeira "Mãe de Deus".
Aduziu-se, a respeito, o exemplo do que acontece em qualquer maternidade humana. A mãe dá ao filho o corpo, não a alma que é infundida diretamente por Deus.Contudo não digo que minha mãe é mãe do meu corpo, mais simplimente que ela é minha mãe, mãe de todo meu ser, porque em mim o corpo e alma formam uma única natureza ou realidade. Assim analogamente , Maria deve ser chamada Mãe de Deus, ainda que tenha dado a Jesus só a humanidade e não a divindade, porque nele a humanidade e a divindade formam uma só pessoa.
Entre Maria e Cristo já não há uma só relação de ordem física, mas também de ordem metafisica, e este fato coloca-a numa altura vertiginosa, criando uma relação especial também entre ela e o Pai.
Com o Concilio de Éfeso, esta compreensão torna-se para sempre uma conquista da Igreja :"Se alguém não confessar que Deus é verdadeiramente o Emmanuel e que por isso a Santa Virgem, tendo gerado segundo a carne o Verbo de Deus feito carne, é a Theotókos, seja anátema" São Cirilo Alexandrino, anatematismo I contra Nestório, in Enchiridion Symbolorun, nr. 252, lê-se num texto aprovado pelo mesmo Concílio. Foi um momento de grande alegria para todo o povo de Éfeso, que esperou os Padres fora da sala conciliar e os acompanhou, com fachos e cantos, até seus alojamentos. Essa proclamaçào determinou, no Oriente e no Ocidente, uma explosão de veneração para com a Mãe de Deus. Veneração que se concretizou em festas litúrgicas, ícones, hinos e inúmeras igrejas a ela dedicadas.
A maternidade "espiritual" de Maria : A contribuição do Ocidente
Essa etapa porém nao era definitiva. havia um outro nível, alem do fisico e do metafísico, a ser descoberto na maternidade divina de Maria, Nas controvérsias cristológicas, o título Theotókos era valorizado mais em função da pessoa de Cristo do que de Maria, apesar de ser um título mariano. Desse título nao se tirava ainda as consequências lógicas relativas a pessoa de Maria e particularmente à sua santidade única. Havia o perigo de Theotókos tornar-se arma de batalha entre correntos teológicas antes que a expressão da fé e da peidade da Igreja para com Maria. Demonstra-o um pormenor que deve ser bem acentuado. O mesmo São Cirilo de Alexandria, que na polêmica lutou como um Leão pelo título de Theotókos, é entre os Padres da Igreja uma nota discordante na apreciação da santidade de Maria.Foi um dos poucos que atribuiram fraquezas e imperfeições a Maria, principalmente ao pé da cruz. Cirilo, acompanhando Orígenes, não conseguia acreditar que uma mulher, ainda que fosse a Mãe de Jesus, pudesse ter tido uam fé e uma coragem maior do que a de todos os Apóstolos que, apesar de homens, vacilaram nbo momento da paixao! (Sao Cirilo Alexandrino, Comentário do Evangelho de São João XII, 19,25-27 [ PG 74,661ss] ).
Essas palavras nascem da pouca estima que omundo antigo tinha pela mulher e mostram como pouco adiantava atribuir a Maria uma maternidade física ou metafísica, em relação a Jesus, se não se lhe atribuía também uma maternidade espiritual, isto é, na alma e não apenas no corpo.
Esta foi a grande contribuição dos autores latinos e particularmente de Santo Agostinho. A maternidade de maria é considerada como uma grande maternidade na fé,como uma maternidade espiritual. Estamos na epopéia da fé de Maria. A propósito da palavra de Jesus : Quem é minha mãe ...., Agostinho atribui a Maria, em sumo grau, aquela maternidade espiritual que nasce do cumprimento da vontade do Pai : "Por acaso não cumpriu a vontade do Pai a Virgem Maria, que pela fé acreditou, pela fé concebeu, que foi escolhida para que dela nascesse a salvaçao para os homens, que foi Criada por Cristo, antes que Cristo fosse nela criado? É certo que santa Maria cumpriu a vontade do Pai e por isso, para Maria, foi mais importante ter sido discipula de Cristo do que ter sido a Mãe de Cristo" Santo Agostinho, Sermões 72A (=Denis 25), 7 Miscelannea Agostiniana, I,p.162).
A maternidade fisica e a maternidade metafisica de Maria chegam assim ao seu apice pelo reconhecimento de uma maternidade espiritual ou de fé, que torna Maria a primeira e mais Santa filha de Deus, a primeira e mais docil discipulo de Cristo, a criatura que -escreve mais uma vez Santo Agostinho- "pela honra devida ao Senhor, nao deve ser mencionada quando se fala em pecado" (Santo Agostinho, natureza e graça 36,42 [ csel.60, p. 263s] ). A maternidade fisica ou real de Maria, criando uma relação única e excepcional entre ela e Jesus, entre ela e toda a Trindade, de um ponto de vista objetivo é e permanece a realidade maior e um privilégio sem igual ; isso porém porque, do ponto de vista subjetivo, existe a fé humilde de Maria. Para Eva certamente era um privilegio unico o fato de ser a "mãe de todos os viventes", mas como não teve fé, isso de nada lhe adiantou nemlhe deu felicidade.

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PARABÉNS A TODAS AS MÃES DO MUNDO.

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