09/03/2020


NIVALDO E JOÃO: UM DEPOIMENTO

Valério Mesquita*

Afinidades de temperamento entre pessoas de famílias diferentes são bastante comuns. Estudos genéticos e outros fatores científicos diversos explicam o fenômeno. Como não sou do ramo não ouso abordar o tema. Mas, coincidências de vida, de destino, de identidades, são mais difíceis de ocorrer com frequência. Peço permissão ao leitor para citar como exemplo, o que ocorreu comigo e o escritor e ex-auditor do TCE Cláudio José Freire Emerenciano. Ingressamos juntos no terceiro ano primário do Colégio Marista em 1954. Cursamos juntos o primário, o ginásio, o segundo grau e a faculdade de Direito sempre na mesma sala de aula. Como infantes e adolescentes frequentávamos os cinemas de Natal (Cines Rex, Nordeste, Rio Grande, Panorama), festas e farras. Formados, fomos nos reencontrar depois, no jornalismo e na política. E hoje, na terceira idade (que ele não proteste), trabalhamos juntos na mesma instituição: o Tribunal de Contas do Rio Grande do Norte, até nos aposentarmos.
Esse fato levou-me a reflexão sobre outro a respeito de dois padres – embora de diferentes gerações – mas de similitudes e coincidências dignas de nota. Refiro-me ao saudoso padre Nivaldo Monte e o seu colega de sacerdócio João Medeiros Filho. Ambos simples, permeáveis, acessíveis, humildes e prestativos. Nasceram em março e no mesmo dia. Estudaram no Seminário São Pedro, em Natal. O sacerdócio dos dois foi exercido na arquidiocese de Natal, além de terem servido como professores na mesma universidade – a UFRN. Dom Nivaldo fundou a Faculdade de Serviço Social e o padre João Medeiros catorze faculdades de Teologia, além da implantação do Centro de Estudos Superiores do Seridó, o CERES da UFRN. Inclusive nesse quadro de iguais funções pedagógicas, ressalte-se as semelhanças de pensamento e ação.
Um era magrinho (Nivaldo), já o outro gorduchinho, mas ambos sofridos pacientes renais. Todavia, não estacam aí outras observações que pude captar dos dois servos do Senhor. Quando João Medeiros voltou do Rio de Janeiro para o Rio Grande do Norte a afetividade dos dois, media-se pela extensão e profundidade de gestos e mútua solidariedade cristã. Nivaldo doou-lhe um terreno para a construção de sua casa em Emaús, Parnamirim. O ex-arcebispo tratava o seu irmão na fé com gestos de amizade especial, fazendo questão, certa vez, de presidir a missa de quarenta anos de sacerdócio do padre jucuturuense. Essa afeição encontrava justificativa no fato de Medeiros tê-lo assistido permanentemente no seminário quando das experiências botânicas do seu amigo. A concomitância, a coexistência, a simultaneidade de dois seres humanos, ligados pelas mesmas circunstâncias de vida numa comunhão de fé e de princípios superiores não podem ficar à margem do desconhecimento.
Já no entardecer da passagem de dom Nivaldo, ali em Emaús, o padre João Medeiros dedicava uma hora do dia para conversar com o arcebispo. Celebrava todo domingo na capela particular, quando Nivaldo não podia mais presidir a liturgia por motivo de saúde. A biblioteca do acadêmico, constituída de obras cientificas, literárias e teológicas era zelada diariamente e sobre os seus livros conversavam sempre. Nivaldo e João, posso afirmar, contemplaram muitas vezes Deus no silêncio da granja de Emaús. João foi o seu confidente durante a enfermidade, até o momento da partida para o descanso eterno.
E como ritual permanente de uma afeição tecida de fraternidade, identidade ministerial e claridades interiores, toda semana o padre João Medeiros Filho vai à sepultura do seu preletor e benfeitor pedir forças para exercer a sua missão e consignar, sem rebuços nem tibieza, o tributo da gratidão. “Prova de amor melhor não há que doar a vida ao seu irmão”.

(*) Escritor.

04/03/2020




QUASE VINTE ANOS DE LONGAS ESPERAS

Valério Mesquita*

A notícia chegara pela manhã trazida pela voz insuspeita do então presidente da Fundação José Augusto. Pelo telefone, o entusiasmo de Woden Madruga me contagiava porque, na verdade, conhecia o meu esforço e as cobranças repetidas através dos jornais e da tribuna da Assembleia Legislativa. Ele acabara de bater o martelo com o governador Garibaldi Filho decidindo a restauração dos Guarapes e toda a área adjacente do sítio histórico, onde se ergueu o primeiro empório comercial do Rio Grande do Norte de exportação e importação de produtos, às margens dos rios Potengi/Jundiaí. Não há melhor oração pela alma de Fabrício Pedroza do que a reconstrução arquitetônica do Casarão cuja vista do alto da colina emociona e devolve o esplendor de uma fase importante da vida econômica do Rio Grande do Norte.
O chamado Engenho dos Guarapes foi o marco expressivo do desenvolvimento econômico dos séculos XVIII e XIX, através da comercialização de produtos agrícolas exportados para outros estados e para o exterior. Viveu o seu apogeu ao tempo de Fabrício Gomes Pedroza, rico comerciante, até chegar o seu declínio econômico no início deste século. O prédio está situado no alto de uma colina, próximo à divisa dos municípios de Natal e Macaíba, e embora em péssimo estado de conservação, nele podem ser aplicadas as técnicas arquitetônicas utilizadas na reconstrução do Solar do Ferreiro Torto em Macaíba, cuja situação física era semelhante ou pior que o Casarão dos Guarapes. Vivia, em 2001, o momento crepuscular do meu quarto mandato parlamentar e não poderia receber melhor notícia. Atravessava aquele momento da coleta das passagens esparsas e produtivas da vida pública quando senti soar a hora da ressurreição do marco mais importante da história econômica do Rio Grande do Norte. E a emoção é maior porque sou de Macaíba, o filho, o irmão, o cidadão, o íntimo, com uma presença permanente e evocativa de amor e respeito a minha terra.
 O projeto arquitetônico estava entregue à competência do arquiteto Paulo Heider Feijó, responsável pela restauração dos mais importantes monumentos históricos do Rio Grande do Norte. Prometi que ao lado do presidente da Fundação José Augusto somaria os esforços para a consecução desse objetivo que resgata o denso passado histórico do nosso estado. Woden tem raízes familiares em Macaíba onde viveu um tempo de sua adolescência ao lado do seu primo Vinícius Madruga, sob os cuidados de sua tia D. Nazaré, anjo de ternura e paz. Além de sua vontade política e administrativa, somara-se à doce e terna cumplicidade telúrica de desarmar os presságios e resgatar os frutos do tempo. A área foi tombada pelo Patrimônio Histórico, desapropriada e paga na época referida.
Dezenove anos são transcorridos, Woden e eu ainda permanecemos na estação das longas esperas. Com o olhar contemplativo na paisagem de um tempo que não queremos sepultar. Os moedeiros do erário ainda escondem o dinheiro. Os pedaços dos Guarapes continuam espalhados no chão dos antepassados. Vilma, Rosalba, ambas ignoraram a restauração dos Guarapes. Robinson, além do desprezo, não aplicou um milhão de reais transferidos pelo Ministério do Turismo e depositados na Caixa Econômica Federal do Rio Grande do Norte. Ele permitiu que o dinheiro voltasse para Brasília porque a iniciativa era dos três: Valério, Woden e Garibaldi Filho. Reclamei até a Procuradoria do Patrimônio e da Defesa Ambiental do Rio Grande do Norte que envidou esforços junto a Fundação José Augusto e a Caixa Econômica sem obter êxito face a má vontade política, administrativa e pessoal do citado ex-governador. E agora, até quando?
(*) Escritor.




Portulanos, caravelas, a Escola de Sagres...
Tomislav R. Femenick – Autor do livro “Os Herdeiros de Deus: a aventura dos descobrimentos”

Antes das grandes aventuras portuguesas e espanholas por mares desconhecidos, realizava-se na Europa uma navegação costeira, que se orientava por pontos de referência, naturais ou não, localizados em terra, tais como baias, enseadas, ilhas, pontas, istmos, cidades, castelos, fortes e, principalmente, portos. O conhecimento desses acidentes, primeiro foi passado de forma oral entre mestres e aprendizes, depois passou a seu descrito em documentos chamados de “portulanos” (roteiros que descreviam os pormenores das costas marítimas), que abrangiam apenas o Mediterrâneo. Em seguida, o seu uso estendeu-se até ao mar Negro, à costa ocidental da Europa, às Ilhas Britânicas e à África. Algumas vezes eram acompanhados de “mapas de portulanos”, cartas náuticas primitivas que, por não disporem de instrumentos que identificassem as graduações de latitude e longitude, exibiam os contornos litorâneos com um perigoso grau de imprecisão.
Para essa navegação de cabotagem eram usadas galeras (ou galés) e veleiros. Os primeiros eram barcos de dupla propulsão, a remo e a vela, com grande mobilidade. Como precisavam de um grande número de remadores, sua capacidade de carga era pequena, se comparada com o seu peso total. Os veleiros do Mediterrâneo contavam com a chamada vela latina, uma vela triangular que trabalhava no sentido de proa à popa, envergada em um mastro cruzado por uma peça de madeira ou ferro (carangueja). No Mar do Norte eram mais usadas as velas retangulares, maiores e mais apropriadas para um melhor aproveitamento dos ventos. Embarcações de ambos os tipos tinham incorporado, desde o século XIII, o leme de cadaste ou de roda – uma forte peça de madeira que integrava a parte de trás da quilha. Preso à popa, o leme dava a direção das naves (FAVIER, 1995; GARCIA, 1999).
A navegação oceânica exigia outras técnicas. Agora não mais haveria terra à vista, pois a viagem se dava em alto-mar, através de oceano desconhecido. A longa duração fora dos portos exigia embarcações ágeis, porém não propulsados por remos, pois uma tripulação de remadores exigiria provisões em quantidade que não seria possível transportar. Portugal saiu na frente. No porto de Lagos foram feitas as primeiras experiências que deram origem à caravela, uma embarcação planejada para levar e trazer os navegantes de volta. Os navios a vela sofreram inovações. Um terceiro mastro nos anos de 1430. Em pouco tempo aparecem quatro ou cinco mastros.
Todavia, a caravela foi uma criação portuguesa, embora que tendo como base barcos de origem muçulmana, com as quais os lusitanos conviveram durante o tempo da ocupação moura. Entre eles estavam o caravo (do árabe qarib), semelhante ao pangaio (MARQUES, 1984), ainda hoje usado nas viagens costeiras na África oriental e na Índia. No rio Douro era utilizada uma embarcação menor que o caravo, chamada de caravela (qarib + ela = caravela) – (BOORSTIN, 1989). A caravela lusitana era uma embarcação veloz, forte e segura para a sua época. Era construída com vigas e tábuas de carvalho, pinho e sobro e cravos de cobre e, raramente, de ferros. No seu projeto não havia lugar para curvas graciosas, entalhes elaborados ou cores brilhantes. Sua pintura preta, feita com betume, procurava resguardar o casco do ar, da umidade e do ataque dos crustáceos. Era a embarcação ideal para as viagens de descobrimento. “La carabela comenzó a usarse en España em el segundo cuarto del siglo XV y seguramente a imitación de los portugueses” (PADRON,1981).
Não se pode falar nos pré-requisitos técnicos necessários aos descobrimentos sem falar no Infante Dom Henrique e na sua criação, a escola de Sagres, a NASA do século XV. Dom Henrique (terceiro filho do rei de Portugal), tinha uma personalidade mística e aventureira, como todo homem medieval, porém se diferenciava pela curiosidade científica, principalmente para com as coisas do mar. Formalmente nunca houve a tal escola. Houve, isto sim, uma região, o promontório de Sagres, onde, a partir de 1438, foram criadas as condições para o desenvolvimentos das técnicas náuticas.  O uso da bússola, do astrolábio, da balestilha (instrumento para medir a altura dos astros) primitiva, do quadrante e de mapas mais precisos resultou dessa junção de saberes. Muito do que se fazia em Sagres – não obstante – era vasado, principalmente para às coroas de Leão e Castela.

Tribuna do Norte. Natal, 05 mar. 2020.

02/03/2020


SOPRA UM VENTO FORTE

Valério Mesquita*

Não, não é o vento de Geraldo Melo soprado no Rio Grande do Norte lá pelos fins e confins dos anos oitenta. Na Espanha, o cardeal Cañizares denunciou a existência de uma revolução social para destruir os postulados da Igreja Católica. A assertiva cardinalícia aduz, ainda, que esse movimento oculto já atua nas escolas e na mídia espanhola e que se alastra nos países vizinhos. Conhecemos que o mundo ocidental é o maior herdeiro no globo terrestre da doutrina cristã. Depois da invasão dos bárbaros, lá pelo século quinto, foram os monges nos conventos, os verdadeiros sustentáculos da fé do Novo Testamento. A revolução social aludida pelo alto dignitário da Igreja Católica espanhola já se estende aos países das Américas, através da perversão dos costumes, da subversão do comportamento da juventude na família, na mídia e nas escolas. É a crise típica de uma sociedade que tem se afastado de Deus, elegendo o mundanismo como valor essencial de vida, embora, passageira, fáctil, fácil, fútil e fóssil. O fato é que o vento sopra forte. Sopra uma revolução social, no dizer do cardeal Cañizares contra a religião católica em plena Espanha (e não somente lá, mas no mundo todo), que já deu reis católicos e espargiu igrejas, conventos e padres em diversas partes do mundo.
De modo geral, as religiões católicas e evangélicas estão atentas no Brasil para o poder da mídia e da influência poderosa que elege e deselege políticos; que manda e desmanda apresentadores de tv para o podium do poder, fazendo a cabeça do jovem e do pobre. Assim também faz a internet: miséria e abusos. Por isso, as igrejas evangelizam mais na televisão do que em seus templos porque, por aqui, a revolução de estrangular o cristianismo já começou. Vejam só: na tv a cabo, contei quatro canais católicos privativos e três evangélicos, sem contar com os programas diários, alugados e pagos por segmentos protestantes diversos. Tudo isso, para conter, esbarrar, meu caro cardeal Cañizares, o vento forte que sopra da península ibérica.
A denúncia do líder religioso espanhol se reveste da maior importância porque foi ditada pela rede de comunicação mundial do Vaticano. Na verdade, a revolução social a que se refere, não parte de grupos, partidos políticos, governos ou quaisquer instituições privadas. Ela provém da crise de caráter, de espiritualidade, do desajuste familiar. Ela, – a revolução social contra a Igreja Católica – está no homem. Não imaginem que vem de correntes evangélicas. Não. Porque se não anuírem que o Deus e a Bíblia são os mesmos, todos naufragarão na praia, vítimas do próprio cata-vento da discórdia. Que isso Deus não permita e que sejam apenas palavras ao vento.
O abismo da destruição iminente do mundo já foi cavado.

(*) Escritor.

22/02/2020


REFLEXÕES SOBRE UM JOGO SUJO

Valério Mesquita*
Mesquita.valerio@gmail.com

A insegurança é o medo nosso de cada dia. A violência passou a ser uma necessidade fisiológica do ser humano. Trata-se de um tema que merece um profundo estudo sociológico. Evidentemente que não me proponho abordá-lo sob esse prisma. O policial é um facínora? Ou o facínora é um policial?
Esse é o indigesto caldo cultural da sociedade brasileira dos últimos dias. Faz-me pensar que os fins de século e milênio, são como as ressacas das marés que trazem à tona a sujeira anticósmica ou propriamente o lixo da civilização. O estado, o mostro Leviatã de que nos falou o filósofo Thomas Hobben, nunca deixou de produzir vítimas tanto nas causas da violência como nos efeitos. A fome, miséria, ignorância e o desemprego continuarão a multiplicar a marginalidade na sociedade desigual. O Poder Público cria o bandido dede pequeno para depois destruí-lo em nome da segurança. Quando o direito e a segurança da educação, da saúde, da nutrição deveriam lhe ter sido assegurados desde o começo. Culpar a polícia pelos exageros é hipocrisia. Policiais e bandidos são seres humanos. Vivem o histerismo da sobrevivência. Ambos produtos do Estado falido, da sociedade injusta, da incompetência da justiça que além de morosa tem sido geradora de equívocos aberrantes.
Como clamar por direitos humanos numa guerra suja de vida ou morte, se foi esquecido antes o direito da criança? Por que instituições como a OAB só procuram combates os efeitos somente e não as causas? Deixa transparecer que defender a vida do marginal em contraposição a do policial, como se este também não fosse um cidadão.
É um campeonato interminável. As disputas sempre sairão empatadas, mas fazendo vítimas inocentes, que tem torcedores são, as, espectadores do próprio drama porque o sistema quis assim e agora parece ser tarde. Será mesmo? Por fim, lembrei-me do compositor Jackson do Pandeiro, cantando: “Esse jogo não pode ser um a um, se o meu time perder eu mato um”.



14/02/2020



A CALÇA MARROM


Valério Mesquita*
Mesquita.valerio@gmail.com

O almirante inglês Lord Nelson famoso estrategista das batalhas contra Napoleão Bonaparte pode ser um exemplo para certos, ousados e intrépidos políticos da nossa província submersa.
Conhecido pela sua destemida coragem, o Lord gostava muito de se jactanciar perante os seus comandados. Na terrível batalha de Tralfagar, a bordo da sua nau impertigável e altaneira, pediu ao observador da esquadra, que lhe informasse a quantidade e a posição do inimigo. Do alto do navio, ouviu que a frota francesa se resumia a quarenta ou cinquenta embarcações e navegava a bombordo. Ato contínuo, ordenou ao seu ajudante pra trazer-lhe a túnica vermelha para enfrentar o inimigo que já se aproximava. Explicou o condestável inglês que o casaco rubro disfarçaria o sangue, se porventura fosse atingido, a fim de não influir no ânimo da tropa real marinha britânica.
Ao cabo de alguns minutos, o Lord Nelson recebeu nova e inesperada notícia da torre de observação: “Não são quarenta nem cinquenta milorde, são quatrocentos navios de guerra!”. O almirante Nelson quedou-se pasmo e lívido. Virou-se para o seu ajudante de ordens e sentenciou calmo mas preocupado: “Traga-me a calça marrom”.
A bravura verbal de alguns guerreiros desse semiárido barrica-se por trás de um suposto conhecimento de suas potencialidades. Não sabem que no paiol de onde saíram, continua ardendo a chama acesa ou fogo fátuo de sua irresponsabilidade no trato da coisa pública. E ai, a explosão será inevitável.
Ei garçom, uma calça marrom, por favor!
Qualquer semelhança com os atores e atrizes da política do Rio Grande do Norte, é mera coincidência.




RELEMBRANDO CORTEZ PEREIRA

Valério Mesquita*
Mesquita.valerio@gmail.com

Escrever sobre ele é relatar uma odisséia. A travessia do sofrimento político, os algozes, os coveiros do seu governo até a eutanásia dos seus sonhos. Recobro os instantes felizes que presenciei ao lado de um homem de cultura, de uma cordialidade que não encobria formas perversas de indignidade e traição.
Meu pai foi seu amigo dileto e colega na Assembleia Legislativa, no período das turbulências entre o PSD versus UDN. O velho Mesquita de pé, altivo e irreverente, apontava para a bancada udenista e disparava ironicamente: “Dessa bancada só quem presta é Cortez Pereira!”. A amizade dos dois se alimentava também nos encontros semanais em Macaíba para impressões sobre a política e o inverno, como dedicados proprietários rurais.
Quando Alfredo Mesquita faleceu em abril de 1969, Cortez – sobre quem o meu pai vaticinava que um dia seria governador do Rio Grande do Norte – foi escolhido no ano seguinte. Lamentei muito ele não ter sobrevivido para contemplar a face desse dia. No seu governo fui nomeado subchefe da Casa Civil, tendo ocupado, posteriormente, após uma reforma administrativa, a coordenação de Assistência aos Municípios do Rio Grande do Norte e a diretoria do Departamento de Serviço Social do Estado. Daí, me exonerei para ser candidato a prefeito de Macaíba. Eleito, Cortez Pereira levou a Telern para o município, comparecendo a duas posses: a minha e a de Dix-Huit Rosado em Mossoró. Inaugurou uma agência do Bandern em Macaíba, a Casa do Agricultor, eletrificação rural, escolas e a alegria de receber em minha casa o rei do baião Luiz Gonzaga.
Em 1973, foi padrinho de batizado de minha filha Isabelle. Relembro, ainda, como seu auxiliar, os memoráveis discursos e palestras. Uma das inesquecíveis, foi a da Federação das Indústrias de São Paulo empolgando Amador Aguiar do Bradesco, Mário Amato, entre outros. Era a pregação do “desenvolvimento econômico” do Rio Grande do Norte, das suas riquezas e potencialidades nos porões do PIB da paulicéia desvairada.
Recordo a sua altivez ao enfrentar e resistir o autoritarismo do general Meira Matos, comandante da guarnição de Natal, que armou estocadas com o objetivo de tirá-lo do governo.
Evoco Cortez Pereira como professor universitário, orador, polemista, deputado estadual, diretor do Banco do Nordeste, suplente do senador Dinarte Mariz que encantou o senado com os seus pronunciamentos em favor do Nordeste e do Rio Grande do Norte. Relembro o projeto camarão, do bicho-de-seda, do Boqueirão, do turismo (Centro de Turismo, bosque dos namorados, cidade da criança e a duplicação da entrada de Natal por Parnamirim). Relembro Cortez santificado pelo padecimento da dor, mas redivivo na lembrança e na admiração de tantos que conheceram a pureza dos seus sonhos. “Louvar o que está perdido torna querida a lembrança”. Shakespeare. Mas, outra injustiça clama alto: Cortez ainda não recebeu da classe política do Rio Grande do Norte o reconhecimento merecido do seu nome constar na frontaria de uma obra oficial importante do estado que amou e por ele foi imolado.
 (*) Escritor