19/09/2017

Jovens e   
     inesquecíveis

  "Passas sem ter teu vigia/ Catando  a
        poesia que entornas no chão".
                                   Chico Buarque

              Despertado e movido pelo sentimento de saudade e pela genialidade daqueles jovens que partiram cedo deste mundo: lembrados, lidos, ouvidos, declamados e  reconhecidamente considerados  como imortais, inesquecíveis.     
     Jovens compositores, cantores, poetas  que, de forma surpreendente, nos deixaram muito cedo; com uma peculiaridade muito reflexiva: no momento que atingiram seus apogeus, suas independências profissionais  e financeiras, momento ímpar e de glória na  vida de cada um. Muitos, na maioria pobres, de família humilde, que depois de atravessarem mares revoltos e de grandes tempestades, de cruzarem estradas perigosas e arredias, são ceifados do nosso meio, do nosso mundo, de maneira surpreendente e arrebatadora.
                                            
       Vejamos alguns deles:

    

        Noel de Medeiros Rosa (Noel Rosa – 1910-1937). Uma das maiores expressões da música brasileira: sambista, compositor, cantor, bandolinista e violonista. Teve uma importância fundamental na identificação e na propagação do samba no território brasileiro, principalmente na cidade do Rio de Janeiro. Foi autor de verdadeiras pérolas musicais, como: “Último desejo” (1937), “Pierrô apaixonado” (1935), “Conversa de botequim” (1935) e centenas de outras preciosidades que tanto enriquecem o amplo acervo musical brasileiro.
     Trocou os estudos da Medicina pelo aprendizado do samba e dos instrumentos musicais. Fez parte do Bando dos Tangarás (1929), ao lado de João de Barro (Braguinha), Almirante, Alvinho e Henrique Brito ( potiguar).                                         Teve com seu rival, o reconhecido compositor Wilson Batista, grandes e  envolventes polêmicas musicais -  quando gravou alguns dos seus grandes sucessos: “Feitiço da Vila” e “Palpite infeliz" - com  lucros e dividendos para a música popular brasileira.
         Faleceu aos 26 anos de tuberculose pulmonar, em sua residência, no bairro de Vila Izabel. Não deixou filhos. Seu corpo encontra-se sepultado no Cemitério do Caju na cidade do Rio de Janeiro.

     Morre hoje sem foguete
     Sem retrato
     Sem bilhete
     Sem luar, sem violão

     Da canção: Último desejo.

                                  ***

                                      
                                
        Adiléia Silva da Rocha – Dolores Duran (1930-1959 – Rio de Janeiro/RJ). Cantora, compositora de origem pobre e modesta. Desde criança, gostava de cantar e sonhava em ser famosa. Aos oito anos, contraiu uma febre reumática, que lhe deixou sequela cardíaca.
       Empolgada e influenciada pelos  amigos e com o sonho pessoal de ser cantora, inscreveu-se no programa de calouros de Ary Barroso, conquistando  o primeiro lugar, - o que lhe abriu o caminho para sua brilhante e rica carreira como cantora e compositora. Autora de belas páginas musicais, como: “A noite do meu bem”, “Fim de caso”, “A fia de Chico Brito”, em parceria com Chico Anysio.
      Em 1955, sofreu um infarto agudo do miocárdio, quando passou trinta dias internada no Hospital Miguel Couto/RJ.                
      Teve uma vida matrimonial muito tumultuada e irregular. Não consegui ter filhos, o que a fez decidir pela adoção de uma filha.
      No ano de 1959, após um cansativo show, ao chegar em casa, e, como de costume, após brincar com a filhinha, fala para sua auxiliar, Rita: “Não me acorde. Estou muito cansada. Vou dormir até morrer!”, disse brincando, e sorriu no momento". No quarto, não se sabe bem a hora exata, sofreu o segundo infarto, dessa vez, fulminante, com apenas 29 anos de idade. Encontra-se sepultada no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro/RJ.

  
      Ah! Como este bem demorou a chegar
     Eu já nem sei se terei no olhar           
     Toda ternura que quero lhe dar                
                                                                      
     Da canção:  A noite do meu bem

                                 ***


         Maysa Figueira Monjardim MatarazzoMaysa Matarazzo (São Paulo, 1936 – Niterói/RJ,1977). Cantora e compositora que encantou o Brasil com sua voz romântica e sensual. De uma postura impecável no palco, com interpretações dramáticas  e sentimentais. Seus lindos olhos cobriam e refletiam na plateia a magia de um céu azul deslumbrante de verão.
        Foi a grande intérprete de Dolores Duran em suas belas canções, como: “A noite do meu bem".
       Como compositora criou belas canções, como: “Meu mundo caiu”, “Tarde triste” e “Ouça”, seu grande sucesso.
       Teve uma vida muito tumultuada e cheia de problemas pessoais e profissionais, de temperamento agressivo e autoritário, sempre envolvida com a mistura  de álcool e de anfetaminas. Faleceu no auge da sua carreira artística/musical, aos 41 anos, vítima de acidente automobilístico, na Ponte Rio- Niterói.

    Ouça, vá viver a sua vida com outro
    bem    
    Que hoje eu já cansei                               
    De pra você não ser ninguém
                                                                    
    Da canção: Ouça


          Elis Regina de Carvalho Costa ( Elis Regina,1945-1982).Gaúcha de Porto Alegre/RS, começou a cantar aos onze anos de idade na Rádio Farroupilha.
         Em 1964, já se apresentava no eixo Rio-Sao Paulo, cantando no programa "Noite de Gala", na TV Rio. Participou no de 1965 como estreante no festival da Record, interpretando a música " Arrastão" de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. Ganhadora dos prêmios Berimbau de Ouro e do troféu Roquette Pinto, como a melhor cantora do ano.
          Faleceu com apenas 36 anos, em São Paulo, no dia 19 de janeiro de 1982, decorrente do uso excessivo de cocaína e álcool.

           É de sonho e de pó
           O destino de um só
           Feito eu perdido em pensamentos
           Sobre o meu cavalo
           É de laço e de nó
           De gibeira o jiló
           Dessa vida cumprida a sol

           Da sua mais bela interpretação-
           canção: Romaria


                                 ***
                                                                


         Milton Carlos (São Paulo, novembro de 1954 – São Paulo, outubro de 1976).
        Jovem brilhante compositor e cantor, de voz efeminada. Irmão da compositora Isolda, autora de “Outra vez” – uma das mais belas poesias musicais da MPB, interpretada por Roberto Carlos.
        Autor de sucessos inesquecíveis, como: “Jogo de dama”, “Café Nice”, ”Samba quadrado” e muitos outros, distribuídos em seus dois únicos LPs.                                                       
       Morreu aos 22 anos, na noite de 21 de outubro de 1976, vítima de acidente automobilístico no trecho da Via Anhanguera/SP.

       Conheço as paredes                          
       Que guardavam segredos                         
       E ações que por si                               
       Não cobriam os seus medos                  
                                                                         
       Da canção: Jogo de damas

                                ***


        Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior (Gonzaguinha, Rio de Janeiro, 1945 – Renascença/PR, 1991).
       Filho adotivo do cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga, o Gonzagão. Compôs sua primeira canção aos 14 anos: “Lembranças da Primavera” (1961).                                         Do seu inesquecível e apreciável álbum musical destacam-se as seguintes canções: “Começaria tudo outra vez”, “Explode coração”, “Grito de alerta” e “O que é o que é?”.
      Faleceu aos 45 anos, no dia 29 de abril de 1991, vítima de acidente de carro, quando regressava de um show no Paraná, em uma rodovia no sudeste deste Estado.

      Há quem fale                                        
      Que a vida da gente                                
      É um nada no mundo                              
      É uma gota, é um tempo                            
      Que nem dá um segundo                                
                                                                       
      Da canção: O que é, o que é?

                               ***


       Jessé Florentino SantosJessé (Niterói/RJ,1952 – Ourinhos/PR, 1993).
       Cantor, compositor e músico, de formação evangélica e de origem pobre.  Passou boa parte da sua vida em Brasília/DF. Começou a cantar ainda criança na Igreja Presbiteriana Independente do Cruzeiro/DF, de propriedade do sei pai.
                                                       
Mudou-se para São Paulo, onde desempenhou sua rica e curta atividade artística musical. 
Vencedor do Festival MPB Shell, da Rede Globo de Televisão, em 1980, com a música “Porto Solidão” (Zeca Bahia e Ginko).
      Em 1983, ganhou todos os troféus no Festival da Organização Ibero-Americana (OTI), em Washington/EUA, como melhor intérprete, melhor canção e melhor arranjo, com a música “Estrelas de Papel”. A letra era uma homenagem ao genial Charles Chaplin, seu ídolo maior.
      Faleceu aos 41 anos (março de 1993), devido à acidente automobilístico, quando sofreu traumatismo cranioencefálico(TCE), momento em que se dirigia para a cidade de Terra Rica, no estado do Paraná, onde ia fazer um show.

       Ah! meu coração é um campo minado
       Muito cuidado, ele pode explodir            
       E se depois de tão dilacerado            
       For desarmado por quem há de vir
       
       Da canção: Campo minado

                               ***


       Pedro Soares Bezerra (Carlos Alexandre, NovaCruz/RN, junho de 1957 – Tangará/São José de Campeste/RN, janeiro de 1989).
      Em 1975, iniciou a sua carreira artística com o nome de Pedrinho. Dois anos depois (1977), foi rebatizado com o nome de Carlos Alexandre, com o apoio e o incentivo incansável do radialista e futuro político potiguar Carlos Alberto de Souza, que o levou para gravadora RGE.
      Aos vinte e um anos, alcançou o sucesso nacional destacando-se como o cantor norte-riograndense de maior representatividade no cenário musical “brega”.
     Morreu no dia 30 de janeiro de 1989, com apenas 31 anos, vítima de acidente automobilístico, entre São José de Campestre e Tangará/RN, quando retornava de um show em Pesqueira, em Pernambuco.[1] 
     Deixou mais de 200 composições gravadas. Ganhou 15 discos de ouro e um de platina, nos quais se destacaram: “Arma de Vingança”, “A Ciganinha”, “Canção do Paralítico”, com mais 100 000 de cópias e “Feiticeira”, com 250.000 cópias vendidas.

        Ela me apareceu                                  
        E com apenas um toque de sua
        magia
        Acabou com a tristeza                        
        Me trazendo alegria                               
                                                                      
       Da canção: Feiticeira

                               ***



      Altemar Dutra de Oliveira (Aimorés/MG, outubro de 1940 – Nova York/EUA, novembro de 1983).
     Muito jovem, a família mudou-se para Colantina, no Espírito Santo, onde teve início a sua carreira musical, quando ganhou o concurso de calouros na radio Difusora.
     No início de suas  apresentações, gostava de imitar cantores famosos, principalmente o seu ídolo maior, Orlando Silva.                                           
     Mudou-se para a cidade Vitória, onde passou a ser admirado e  bastante requisitado para cantar nas boates de luxo, momento que iria influenciar decisivamente em sua carreira.
     Deixa a cidade de Vitória com apenas 17 anos (1957) e desembarca na cidade Maravilhosa, à época Capital Federal. Logo, logo é contratado como crooner em boates e casas de shows. 
     Parceiro inseparável da famosa dupla de compositores: Evaldo Gouveia e Jair Amorim. Interpretou de forma inimitável seus grandes sucessos, como: “O Trovador”, “Sentimental demais”, “Brigas”, “Tudo de mim ” e muitos outros. Fez carreira internacional, sendo considerado um dos mais populares cantores estrangeiros nos EUA.
     Faleceu aos 41 anos, vítima de uma ruptura de um aneurisma cerebral em pleno palco, quando se apresentava na boate El Continente, em Nova York/EUA, onde residia com a sua família.

      Brigo eu                                            
      Você briga também                              
      Por coisas tão banais                              
      E o amor                                               
      Em momentos assim                          
      Morre um pouquinho mais                       

      Da canção: Brigas - Música que
      gostaria de ser lembrado quando
      morresse. 

      
                              ***


       Evaldo Braga (Campos dos Goytacazes/RJ, 26 maio de 1945 - Areal/RJ, 31 de janeiro de 1973). Dizia: "Infelizmente não tive a sorte de  conhecer os meus pais, mas sei o nome de ambos: Evaldo e Benedita Braga. Eles não podiam me sustentar e me abandonaram". Há também relato que Evaldo Braga é fruto de relacionamento extraconjugal. Sua mãe seria uma prostituta da cidade de Campos.                                     
       Não teve uma infância feliz, ocupando boa parte dela, nas ruas, chegando a ser internado no SAM ( Serviço de Amparo ao Menor - Funabem), atualmente Fundação Casa, onde conheceu e fez uma estreita amizade com o colega Dario Peito de Aço- o Dadá Maravilha - grande goleador do Atlético Mineiro e jogador da seleção brasileira.
      Em 1971 gravou o seu primeiro compacto -"Só Quero", com grande sucesso, vendendo mais de 150 mil cópias.
      Seu grande sucesso "Sorria, sorria"em parceria com Carmen Lúcia, marcou para sempre a sua imagem como o principal expoente da música black no brega.
      Faleceu aos 27 anos, no auge da sua curta carreira artística, vítima de acidente automobilístico na BR-3 ( atual BR-040), trecho próximo ao município de Três Rios, na divisa de Minas Gerais com o Estado do Rio de Janeiro, no dia 31 de janeiro de 1973.
      Seu corpo foi sepultado no Cemitério  São João Batista/ RJ, diante de uma forte e empolgante comoção popular.

         Sorria meu bem, sorria                         
         Da infelicidade que você procurou
         Sorria  meu bem, sorria
         Você hoje chora                               
         Por alguém que nunca lhe amor

         Da canção: Sorria, sorria          
 ________________
Colaboração do leitor Berilo de Castro.

18/09/2017

SOLENIDADE DE POSSE NO IHGRN

Registro fotográfico da solenidade de posse dos novos sócios do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte:

Abertura pelo Presidente ORMUZ BARBALHO SIMONETTI 
 
Mesa dos trabalhos: Secretário Odúlio Botelho, Prefeito de Ceará Mirim Marconi Barreto, Ormuz, Valério Mesquita, Joventina Simões e  Graco Aurélio Câmara de Melo Viana








Odúlio Botelho, o primeiro orador, fazendo saudação aos novos sócios

 
Entrega do Diploma ao novo Sócio André Felipe Pignataro Furtado de Mendonça e Menezes, neto do escritor e jurista Eider Furtado de Mendonça e Menezes

Nova sócia Cleoneide Silveira, da Terra dos Canaviais
 
 Valério Mesquita recebe o Diploma pelo novo sócio Fernando Antônio Bezerra. Também faz parte do grupo de novos sócios a Escritora Rejane Cardoso.

André Felipe fala em nome dos empossados.

O Prefeito Marconi fala na solenidade, onde tomou posse uma conterrânea


O último orador foi Graco Aurélio.


 Gustavo Sobral e Carlos Gomes presentes à solenidade

 Vista parcial do auditório.








16/09/2017



   
Marcelo Alves


A Biblioteca da Big Apple (II)

No artigo da semana passada, ressaltei aqui a história e as qualidades estéticas da sede principal da “New York Public Library”, batizada de “Edifício Stephen A. Schwarzman”, que fica, como sabemos, no número 476 da granfina 5ª Avenue (metrô 5ª Avenue ou 42ª Street/Bryant Park). No estilo “beaux-arts”, tombado pelo governo dos Estados Unidos da América como “National Historic Landmark”, o garboso edifício é um dos mais representativos marcos arquitetônicos novaiorquinos. 

Entretanto, a “New York Public Library” não é só história e belezura. 

Ela é uma instituição viva que funciona muitíssimo bem. 

Antes de mais nada, a “New York Public Library”, a exemplo de outras grandes livrarias mundo afora (como a “British Library” e a “Biblioteca Nacional de España”, em Londres e Madrid, respectivamente), funciona como um excelente museu. Estão lá, para a nossa apreciação, desde belíssimas iluminuras com mais de mil anos ao original do discurso de despedida do Presidente George Washington (1732-1799), passando pela primeira Bíblia de Gutemberg (1398-1468) que chegou aos Estados Unidos da América, entre outras preciosidades. Do balacobaco é a coleção de mapas da “NYPL”, que se afirma, e não tenho porque duvidar disso, uma das maiores do mundo. E isso sem falar nas amostras e exposições temporárias, como uma sobre Alexander Hamilton (1757-1804), nela chamado de “Striver, Statesman, Scoundrel”, que coincidiu com a minha última estada por lá, coisa de outubro do ano passado. Essa exposição, aliás, até me interessava. Mas como ela era, tirando pelo título, depreciativa ao heroico “founding father”, morto em duelo, confesso que, de birra, a boicotei. 

Em segundo lugar, embora gigante (seu acervo é contado em mais de uma dúzia de milhões de títulos, percorrendo os mais variados temas) e visitada por mais de 10 milhões de leitores anualmente (profissionais e diletantes, ilustres e anônimos), a “New York Public Library” é muito funcional. 

Nesse ponto, talvez a grande sacada dos seus idealizadores tenha sido projetar a sala de leitura principal no último andar e os seus muitos quilômetros de estantes espalhados pelos andares mais abaixo. Como registram os autores de “A biblioteca: uma história mundial” (Edições Sesc, 2016, e cujo título original é “The Library: a World History”), James W. P. Campbell (texto) e Will Pryce (fotografias): “do ponto de vista de um bibliotecário, isso era ideal”. Já à época, os “livros eram movidos utilizando elevadores e esteiras elétricos diretamente das estantes para as mesas na sala”, registram os mesmos autores. No mais, a sala de leitura foi posta no topo do edifício “porque seu teto podia ser alto e possuir janelas amplas que permitissem a entrada da maior quantidade de luz possível”. Hoje essa grande sala de leitura é chamada “Rose Main Reading Room” (em homenagem a Sandra Priest Rose e Frederick Phineas Rose, que financiaram sua restauração em 1998). Dividida em duas pelas escrivaninhas dos bibliotecários, originalmente na grande sala cabiam 490 leitores; hoje, 624. Coincidentemente, em outubro do ano passado (quando lá estive), a “New York Public Library” e a cidade de Nova York como um todo estavam comemorando, após mais de dois anos de uma nova reforma, ao custo de uma dúzia de milhões de dólares, a reabertura da “Rose Main Reading Room”. Precavido, até guardei uma reportagem de jornal sobre o evento, sabendo que um dia faria uso dela aqui. Lembremos, por fim, que essa é apenas uma das várias salas de leitura da “NYPY”. Existem outras, dedicadas às coleções especializadas, que, por óbvio, são mais modestas. 

Na verdade, a “New York Public Library” foi idealizada, nas palavras dos autores de “A biblioteca: uma história mundial”, como “uma máquina eficiente para o armazenamento, recolhimento e reorganização dos livros”. E isso eu pude constatar pessoalmente, no que toca aos seus recursos e à sua funcionalidade quando daquele meu fatídico carnaval de 2006 em Nova York, de tristíssima figura, em que eu resolvi passar boa parte dos meus dias na “Big Apple” enfurnado, pesquisando na “New York Public Library” para o tal projeto de doutorado que eu estava então entabulando. Pelo que me lembro, trabalhei/pesquisei bastante na “Mid-Manhattan Library”, que fica no número 455 da 5ª Avenue (mais ou menos na altura da 40ª Street) e é uma das subsedes “New York Public Library”. Aberta até mais tarde se comparada com a sede principal (até coisa de 23 horas, acho), tive acesso livre, com um mínimo de burocracia (hoje é fundamental requerer um cartão temporário para pesquisador visitante). Paguei por um cartão de cópias e mandei brasa. Ainda hoje tenho umas tais “Letters” do “Chief Justice” John Marshall (1755-1835), contemporâneas ao caso “Marbury v. Madison” (1803), que não usei para coisíssima alguma. 

Aqui surge um terceiro ponto que eu quero destacar: a “New York Public Library” não é só o “Edifício Stephen A. Schwarzman” da badalada 5ª Avenida. Como mão longa da instituição, são quase uma centena de pequenas sub(sedes) espalhadas pela cidade (noventa e duas, mais precisamente, quando da minha última estada por lá), a exemplo da “New Amsterdam Library” (Murray Street, nº 9), que visitei e achei bastante dedicada, com cursos e eventos literários, à comunidade local de leitores, tanto adultos como crianças. Algumas dessas “filiais”, entretanto, não são tão pequenas assim – na verdade, são enormes –, como a já referida subsede do número 455 da 5ª Avenue (que mantém interessante programação com filmes e palestras sobre livros e literatura) ou a do número 188 da Madison Avenue (esta dedicada às ciências, à indústria e aos negócios), que também visitei para poder escrever este riscado para vocês. 

E isso tudo sem falar nos recursos online disponibilizados pela “New York Public Library”, para que o leitor/pesquisador possa trabalhar “fora da biblioteca”. Tive a oportunidade de xeretar o catálogo da subsede “Science, Industry and Business Library” (referida acima) e ele é fantástico. Um outro – e admirável – mundo novo. 

Bom, se é para botar um único defeito na “New York Public Library”, aponto a sua lojinha do prédio principal. Achei fraca, sobretudo se comparada com a lojinha da “British Library”, sobre a qual, recordo-me bem, já tratei aqui. Mas isso pode ser só mais uma birra minha com a “NYPL”, que é realmente única, como única é a cidade que a hospeda. 

Marcelo Alves Dias de Souza 
Procurador Regional da República 
Doutor em Direito pelo King’s College London – KCL 
Mestre em Direito pela PUC/SP


   
Marcelo Alves

A Biblioteca da Big Apple (I)
Faz já um bocado de anos – acho que foi em 2006 –, eu resolvi passar um carnaval em Nova York. Até aí tudo bem. Embora não fosse uma Olinda ou uma Salvador, era uma decisão razoável. O problema é que eu também decidi – e agora, retrospectivamente, vejo a insensatez dessa minha segunda decisão – passar boa parte desses meus dias na “Big Apple” realizando estudos para um projeto de doutorado que eu estava à época preparando. 

Bom, de toda sorte, foi aí que eu conheci – no que toca aos seus recursos e à sua funcionalidade – a famosa “New York Public Library”, que, para nossa sorte, tem seu edifício principal muitíssimo bem localizado, sob o ponto de vista do turista novaiorquino, no número 476 da famosa 5ª Avenue (metrô 5ª Avenue ou 42ª Street/Bryant Park). 

Para quem não sabe, a complexa história da “New York Public Library”, como explicam Guillaume de Laubier e Jacques Bosser, em “Bibliothèeques du monde” (Éditions de La Martinière, 2014), tem “início em 1848 com uma doação – considerável para a época – de 400 mil dólares por John Jacob Astor [1763-1848], o americano mais rico do seu tempo, que visava criar uma biblioteca de referência aberta ao público [novaiorquino]”. Lembremos que o desenvolvimento das instituições culturais de Nova York ainda não havia acompanhado o crescimento econômico daquela que se tornou a mais populosa e importante cidade norte-americana. Já em 1870, segundo os mesmos autores, “um rico negociante e empreendedor imobiliário, James Lenox [1800-1880], decidiu criar uma biblioteca a partir da sua rica considerável coleção de obras raras, manuscritos e documentos da história dos Estados Unidos da América”. 

Entretanto, essas duas bibliotecas, além de elitistas, sofriam com a falta de financiamento permanente. E foi nesse contexto que, por volta de 1892, surge uma terceira personagem, Samuel J. Tilden (1814-1886). Ex-governador do estado de Nova York, candidato democrata vencedor no voto popular à presidência do país em 1876 (mas que não levou o “prêmio” por espúrias manobras da época), ela havia destinado sua considerável fortuna a uma fundação encarregada de criar uma grande biblioteca pública e gratuita para a cidade. 

Após complexas negociações, como lembram os já citados Guillaume de Laubier e Jacques Bosser, “a Fundação Tilden e as bibliotecas Astor e Lenox findam por se fundir sob o nome de New York Public Library, uma sociedade privada sem fins lucrativos”. A ideia, basicamente, era utilizar a dinheirama para juntar as duas coleções preexistentes e colocá-las em novo e belo edifício apto a futuras expansões. À frente da instituição é alçado John Shaw Billings (1838-1913), célebre bibliotecário, que imediatamente se dedica a “unificar as coleções, a recrutar os profissionais especializados, a criar um catálogo e [o mais importante para nós] a lançar a construção de um novo edifício à altura do desafio”. 

O local dessa primeira e principal sede, que hoje se chama “Edifício Stephen A. Schwarzman”, nós já conhecemos: a badalada 5ª Avenida. 

O projeto, desenvolvido a partir de “layout” básico idealizado por seu bibliotecário, John Shaw Billings, é de responsabilidade da “Carrère & Hastings”, à época uma pouco conhecida firma de arquitetura (registre-se que outra firma de arquitetura, até mais famosa, a “McKim, Mead & White”, é responsável por mais de uma dezena de outras sedes da “New York Public Library”). De 1895, ele (o projeto) combina, com rara maestria, o velho e novo (para a época, sobretudo em termos de engenharia e funcionalidade). Segundo andei pesquisando, do ano da apresentação do projeto (1895) até a inauguração da Biblioteca em 1911, com um custo estimado de 29 milhões de dólares (em valores da época, claro), incluindo a aquisição do terreno, foram 16 anos. E, para ser mais preciso, as obras duraram de 1902 a 1911, sendo que os últimos cinco anos, a partir de 1906, foram basicamente dedicados ao embelezamento do seu interior. 

De fato, como registram os autores de “A biblioteca: uma história mundial” (Edições Sesc, 2016, e cujo título original é “The Library: a World History”), James W. P. Campbell (texto) e Will Pryce (fotografias): “Uma vez definido o leiaute, o arquiteto foi indicado e escolhido por concorrência, com plantas enviadas por todas as grandes empresas de Nova York, embora a ganhadora, Carrère & Hastings, fosse pouco conhecida na época. A pedra fundamental foi colocada em maio de 1902, o teto ficou pronto em 1906, e o prédio finalmente foi inaugurado em 23 de maio de 1911. A biblioteca já possuía 1 milhão de livros, contando com 120 km de estantes. Declarou-se naquela época que a sala de leitura principal [hoje batizada de 'Rose Main Reading Room'] era a maior de seu tipo em todo o mundo, com 23,5 m de largura, 90,5 m de comprimento e 15,5 m de altura. Várias salas de leitura subsidiárias foram construídas para as coleções especializadas”. 

Hoje chama a atenção de quem passa pela 5ª Avenida aquele gigante de mármore, clássico e conservador, embelezado por uma esparramada escadaria, colunas que não sei agora precisar o estilo e muitas e enormes janelas de metal e vidro. O interior segue o mesmo estilo clássico. As paredes de pedra, como se pode sentir desde o salão principal de entrada (o “Astor Hall”), parecem desumanamente maciças, como se estivessem lá há séculos. Afora os elevadores, muitas e grandes escadas, com muitos lances, levam às salas de leitura posicionadas acima. A “DeWitt Wallace Periodical Room” (no primeiro andar) e a “McGraw Rotunda” (no terceiro) são espaços de beleza ímpar. No geral, o ambiente – e aqui me refiro especialmente à grande sala de leitura –, é arejado e bem iluminado (através das já mencionadas janelas), sendo dominado por um teto finamente trabalhado, por mármore e outras pedras e, sobretudo, por muita madeira (mais clara que escura), ferro e aço. 

O resultado de toda essa saga – em estilo que se convencionou chamar de “beaux-arts” – é um dos mais marcantes monumentos novaiorquinos, hoje (na verdade, desde 1965) tombado pelo governo dos Estados Unidos da América como “National Historic Landmark”. E tudo isso pode ser visto e revisto: metodicamente, a partir de filme exibido na própria “NYPL” e em passeios guiados; ou diletantemente, como queiras, sem eira nem beira. 

Entretanto, a “New York Public Library” – com seus quase 150 km de estantes, espalhadas em oito andares abaixo da icônica sala de leitura principal, apenas no edifício da 5ª Avenida – não é só belezura. E isso veremos no nosso papo da semana que vem. 

Marcelo Alves Dias de Souza 
Procurador Regional da República 
Doutor em Direito pelo King’s College London – KCL 
Mestre em Direito pela PUC/SP

15/09/2017


O INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE viveu na tarde-noite de ontem (dia 14 de setembro) um momento de culto à história, com a excelente palestra do Engenheiro Manoel Negreiros, dissertando com riqueza de detalhes o tema: "A História e a Construção da Ponte de Igapó".
O evento teve abertura com as palavras do Presidente do IHGRN, Ormuz Barbalho Simonetti, que está dando nova dinâmica na atuação da Casa da Memória no que se refere à socialização da cultura histórica potiguar, despertando o interesse da comunidade.

 Iniciando a sua explanação, o palestrante apresentou slides de documentos importantes e o registro da sua presença com os construtores da ponte, ainda em plena atuação na Inglaterra. 

O assunto, pela sua importância e excelência da exposição, está a merecer uma reedição, com a presença dos estudiosos da história e da engenharia, bem assim a publicação de um livro. Parabéns ao Professor Manoel Negreiros e ao IHGRN pela promoção.