15/07/2016

INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE SER

Valério Mesquita*

Leonel Mesquita foi agropecuarista, proprietário da Fazenda Arvoredo, que depois veio a pertencer a sua esposa Nídia Mesquita, minha irmã. Leonel faleceu ainda moço, em 1979. Foi prefeito constitucional de São Gonçalo do Amarante tendo, durante muito tempo, militado na UDN, como membro do diretório estadual desse partido em Macaíba. Foi seguidor fiel de Dinarte Mariz e Djalma Marinho, nos quais sempre votou. Era homem de coragem pessoal, de fidelidade aos amigos, mas implacável como inimigo. A sua marca registrada era a irreverência.
01) Certa vez, ele se indispôs com um então deputado estadual que fazia política também em seu município, São Gonçalo do Amarante. Tal deputado era tido como pessoa dúbia, que sempre ficava em cima do muro para lhe prejudicar politicamente. Numa manhã, sentado à mesa do gerente do Bandern, no Grande Ponto, estava justamente falando do referido parlamentar quando este entrou na agência. Ao vê-lo, o gerente o apontou a Leonel, que em cima do lance retrucou: “Ele veio ao banco para depositar caráter!”.
02) Numa das campanhas municipais de Natal, era candidato a vereador o senhor Leonel Monteiro, comerciante da capital. Leonel Mesquita residia em Natal, à rua Nilo Peçanha, quase em frente à Maternidade Januário Cicco. Num começo de tarde, quando almoçava, tocaram a campainha. Era uma comissão do bairro Bom Pastor que viera procurar o candidato Leonel Monteiro para lhe fazer uma série de reivindicações eleitorais. Leonel Mesquita, percebendo o equívoco, mandou entrar, deu um esporro na comissão dizendo entre outras coisas: “Eu, Leonel Monteiro, estou eleito. Não preciso do voto de vocês, que são uns exploradores e só querem me marretar”. Daí, você pode imaginar tudo e até as consequências para o pobre do Leonel Monteiro, que era uma boa pessoa.
03) Em Utinga, um dos redutos eleitorais em São Gonçalo, havia um seu compadre que, apesar de muito favorecido, não lhe inspirava bastante confiança. Era no tempo do fanatismo político do ex-governador Aluízio Alves. Dia da eleição, Leonel fora advertido de véspera pelo vereador José Pegado Mendes que o duvidoso compadre não votaria nos seus candidatos, muito embora tivesse recebido farto material de construção. Comprovadas as evidências, foi esperá-lo à porta da secção eleitoral. Quando o eleitor recebeu a cédula de votar, Leonel a pediu, cravou os números dos seus candidatos; fechou o envelope e finalizou: “Pronto, compadre, bote na urna. É corno quem disser que você não votou comigo!!”.
04) Leonel Mesquita foi um emérito gastador na política. Financiou muitas eleições em Macaíba e São Gonçalo do Amarante para Dinarte Mariz e Djalma Marinho, dois dos maiores amigos políticos. De uma feita, o seu tio Paulo Mesquita alarmado com os gastos e a devastação que ele fazia na propriedade rural, profetizou: “Arvoredo é tão rica e tão boa, que Leonel todos os meses passa o dia depredando a propriedade, mas ela durante a noite se refaz para ele no dia seguinte fazer tudo novamente”.
05) Leonel era abecedista de carteirinha. Vez em quando, frequentava o Castelão. Certa vez, estacionou, à tarde, o seu carro em frente ao estádio e pediu os cuidados de um garoto “pastorador”. Ao final do jogo, constatou que seu automóvel havia sido deslocado do ponto onde o deixou, o que danificou a caixa de marchas. O “pastorador” denunciou de pronto, que empurraram o veículo, mas anotou a placa do carro do responsável. Dia seguinte, ele foi ao Detran e descobriu o nome do proprietário. Era um conhecidíssimo engenheiro, dono de uma construtora. Sem maiores contemplações, Leonel colocou um paralelepípedo no banco do seu carro e se dirigiu à sede da empresa, no bairro da Ribeira. Lá encontrou o automóvel do empreiteiro. Ato contínuo, atirou o petardo no parabrisa do automóvel do proprietário e, sob os olhares dos curiosos, sentenciou: “Tamos quites!!!”.


(*) Escritor. 

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