quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Professor Francisco Rodrigues Alves




O MACHADIANO PROFESSOR RODRIGUES ALVES
(Odúlio Botelho Medeiros)


                        Fui criado ouvindo o seresteiro Chico Botelho dizer: “a justiça tarda, mas não falha”. Quando tomei conhecimento de que o advogado/escritor David de Medeiros Leite iria homenagear, quando de sua posse no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, o professor RODRIGUES ALVES, velho mestre de português do ATHENEU, lembrei-me das verdades que eram difundidas pelo meu avô. É que, afora Nei Leandro de Castro, um dos seus ex-alunos que, em talentoso artigo publicado na Tribuna do Norte, de 1º de maio de 2005, prestou-lhe bonita e justa homenagem, que empolgou a cidade e sensibilizou os que foram alunos do professor que residia na rua Potengi, justamente ao lado do Atheneu, pouca ou quase nenhuma referência se fez ao cearense nascido no Pereiro, como ele costumava dizer, cheio de orgulho e de empáfia.
                        Tive, também, ao lado de outros de minha geração a oportunidade e a sorte de ter sido discípulo do professor que ora relembro. Aquele jeito austero e elegante de falar são inesquecíveis. A sua cultura e a elegância no vestir permanecem indestrutíveis na minha memória. Acredito que ele fazia das tripas coração para se manter elegante, uma vez que professor estadual, de poucos ganhos, portanto.
                        Foram muitas as lições de literatura (portuguesa e brasileira), coisas muito do seu domínio. Era literato por natureza. Rodrigues Alves não exercia a cátedra apenas por exercer. Vivia a cátedra. Em sala de aula revelava-se um homem sério, franco, leal, abundante de moral e cultura, porque, não apenas preparava as aulas para exercitar os alunos e a matéria que lecionava. Ia mais além: dava vida às aulas, impregnava o ambiente de sinceridade e incentivos. Era, sim, na melhor assertiva, um homem de letras, com muito talento, que fazia resplandecer no discurso programático, todas as leituras agasalhadas no tempo e no espaço, a exemplo dos filósofos gregos. Ser aluno de Rodrigues Alves era ser aluno da vida, da euforia e aluno da esperança.
                        As suas aulas de literatura portuguesa e brasileira transformavam-se num desfile permanente de grandes autores. Lembro-me bem do destaque que dava aos escritores Raul Pompéia, Machado de Assis (o seu predileto), Lima Barreto, Aluísio Azevedo, José Américo de Almeida, Câmara Cascudo, Érico Veríssimo, Gilberto Freire, Jorge Amado, José Lins do Rêgo e aos poetas Castro Alves, Olavo Bilac, Álvares de Azevedo, dando ênfase à Semana de Arte Moderna, especialmente a Manoel Bandeira. Quanto aos escritores portugueses lembrava sempre Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Vieira e os poetas Camões, Guerra Junqueiro, Antero de Quental, enaltecendo, ainda, Fernando Pessoa.
                        A minha turma do Atheneu (1º ano clássico – 1957/59) – era mista, uma novidade na época, podendo registrar que os alunos procediam de origem humilde – em sua maioria - mas, esperançosa, dinâmica e valorosa. As mulheres já demonstravam liderança e vontade de vencer, a exemplo de Valquíria Félix da Silva, Salete Bernardo, Marta (irmã de João Ururai), Maria Clara, Maria da Conceição Simonetti, Lúcia Saldanha, Dales Falcão, Izabel Bezerra e tantas outras que o tempo e a vida distanciaram. Lembro-me, também, de Gilka Bigois. Quanto aos homens, devo registrar Nei Leandro de Castro (o vocacionado), Glênio e Claudionor de Andrade Jr., José Dias de Souza Martins, Ronaldo Ferreira Dias, Danilo Bessa, Roosevelt Garcia, Borginho e Danúbio Rebouças Rodrigues – filho do lente (usava-se esse termo). As omissões ficam por conta da idade.
                        Assim, quero atestar nesta oportunidade, por um dever de justiça e gratidão, que o Prof. Rodrigues Alves foi a figura marcante da minha vida estudantil. O impressionante é que o mestre do Atheneu, que dava lições de decência e de língua portuguesa, entusiasmou uma geração que precisava estudar, compreender o mundo, sonhar e progredir.
                        Registro, ainda, o Rodrigues Alves idealista, avançado para o seu tempo, homem ligado às causas populares e ardente defensor da criação e implantação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, da qual tornou-se, depois, professor.                         Tenho certeza de que os que tiveram o privilégio de conviver com RA jamais poderão esquecê-lo, pois ele faz parte da cultura que conseguimos armazenar ao longo do tempo e as demonstrações de cidadania permanecerão intactas nas mentes de seus admiradores.
                        Portanto, parabenizo o Dr. David de Medeiros Leite por ter optado pela figura do Professor Francisco Rodrigues Alves, fazendo reviver o homem e o mestre, quando de sua posse como sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, o que ocorrerá no próximo dia 17 de junho de 2005. Ao apertar a sua mão, Dr. David, o faço como o homenageado: “Você parece que é do Pereiro?”...

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